domingo, 29 de junho de 2014

Harry Potter e a pedra filosofal

Capítulo 17 - O homem de duas caras

Era Quirrell.
— O senhor!— exclamou Harry, Quirrell sorriu. Seu rosto não tinha nenhum tique.
— Eu — disse calmamente — estive me perguntando se encontraria você aqui, Potter.
— Mas pensei... Snape...
— Severo? — Quirrell deu uma gargalhada e não era aquela gargalhadinha tremida de sempre, era fria e cortante. — É, Severo faz o tipo, não faz? Tão útil tê-lo esvoaçando por aí como um morcegão. Perto dele, quem suspeitaria do c... c... coitado do ga... gaguinho do P... Professor Quirrell?
Harry não conseguia assimilar. Isto não podia ser verdade, não podia.
— Mas Snape tentou me matar!
— Não, não, não. Eu tentei matá-lo. Sua amiga Hermione Granger, por acaso, me empurrou quando estava correndo para tocar fogo no Snape naquela partida de Quadribol. Ela interrompeu o meu contato visual com você. Mais uns segundos e eu o teria derrubado daquela vassoura. Teria conseguido isso antes se Snape não ficasse murmurando antifeitiço, tentando salvá-lo.
— Snape estava tentando me salvar?
— É claro — disse Quirrell calmamente. — Por que você acha que ele queria apitar o próximo jogo? Ele estava tentando garantir que eu não repetisse aquilo. O que na realidade é engraçado... Ele nem precisava ter se dado ao trabalho. Eu não poderia fazer nada com Dumbledore assistindo. Todos os outros professores acharam que Snape estava tentando impedir a Grifinória de ganhar, ele conseguiu realmente se tornar impopular... E que perda de tempo, se depois disso vou matá-lo esta noite.
Quirrell estalou os dedos. Surgiram no ar cordas que amarraram Harry bem apertado.
— Você é muito metido para continuar vivo, Potter. Sair correndo pela escola no dia das Bruxas daquele jeito e, pelo que imaginei me viu descobrir o que é que estava guardando a pedra.
— O senhor deixou o trasgo entrar?
— Claro que sim. Tenho um talento especial para lidar com tragos. Você deve ter visto o que fiz com aquele na câmara lá atrás? Infelizmente, enquanto o resto do pessoal estava procurando o trasgo, Snape, que já desconfiava de mim, foi direto ao terceiro andar para me afastar, e não só o meu trasgo não conseguiu matar você de pancada, como o cachorro de três cabeças nem sequer conseguiu morder a perna de Snape direito. Agora espere aí quieto. Preciso examinar este espelho curioso.
Foi somente então que Harry percebeu o que estava parado atrás de Quirrell. Era o Espelho de Ojesed.
— Este espelho é a chave para encontrar a pedra — murmurou Quirrell, batendo de leve na moldura. — Pode-se confiar em Dumbledore para inventar uma coisa dessas... Mas ele está em Londres... E estarei bem longe quando voltar.
A única coisa que ocorreu a Harry foi manter Quirrell falando para impedi-lo de se concentrar no espelho.
— Vi o senhor e Snape na floresta. — falou de um fôlego só.
— Sei — disse Quirrell indiferente, dando a volta ao espelho para examinar o avesso. — Naquela altura ele já percebera minhas intenções, e tentava descobrir até onde eu tinha ido. Suspeitou de mim o tempo todo. Tentou me assustar, como se fosse possível, quando tenho Lord Voldemort do meu lado...
Quirrell saiu de trás do espelho e mirou-o cheio de cobiça.
— Estou vendo a Pedra... Eu a estou apresentando ao meu mestre... Mas onde é que ela está?
Harry forçou as cordas que o prendiam, mas elas não cederam.
Tinha que impedir Quirrell de dedicar toda a atenção ao espelho.
— Mas Snape sempre pareceu me odiar tanto.
— Ah, e odeia mesmo — disse Quirrell, displicente —, e como odeia. Ele estudou em Hogwarts com o seu pai, você não sabia? Os dois se detestavam. Mas ele nunca quis ver você morto.
— Mas ouvi o senhor soluçando, há uns dias. Pensei que Snape estava ameaçando o senhor...
Pela primeira vez, espasmos de medo passou pelo rosto de Quirrell.
— Às vezes, eu tenho dificuldade em seguir as instruções do meu mestre. Ele é um grande mago e eu sou fraco.
— O senhor quer dizer que ele estava na sala de aula com o senhor? — exclamou Harry admirado.
— Está comigo aonde quer que eu vá — disse Quirrell em voz baixa — Conheci-o quando estava viajando pelo mundo. Eu era um rapaz tolo naquela época, cheio de idéias ridículas sobre o bem e o mal. Lord Voldemort me mostrou como eu estava errado. Não existe bem nem mal, só existe o poder, e aqueles que são demasiado fracos para o desejarem. Desde então, eu o tenho servido com fidelidade, embora o desaponte muitas vezes. Por isso tem precisado ser muito severo comigo — Quirrell estremeceu de repente — Não perdoa erros com muita facilidade. Quando não consegui roubar a pedra de Gringotes, ele ficou muito aborrecido. Castigou-me, resolveu me vigiar mais de perto.
A voz de Quirrell foi morrendo. Harry lembrou-se de sua viagem ao Beco Diagonal, como podia ter sido tão burro? Ele vira Quirrell lá naquele dia, apertara a mão dele no Caldeirão Furado.
Quirrell praguejou baixinho.
— Eu não entendo... A Pedra está dentro do espelho? Devo quebrá-lo?
A cabeça de Harry pensava a mil.
O que quero acima de tudo no mundo, neste momento, é encontrar a Pedra antes que Quirrell a encontre. Então se me olhar no espelho, devo me ver encontrando a Pedra, o que quer dizer que verei onde está escondida! Mas como posso me olhar sem Quirrell perceber o que estou tramando?” Harry tentou se deslocar para a esquerda, para se posicionar diante do espelho sem Quirrell notar, mas as cordas que prendiam seus tornozelos estavam muito apertadas. ele tropeçou e caiu.
Quirrell não lhe deu atenção. Continuou falando sozinho.
— O que é que o espelho faz? Como é que ele funciona? Ajude-me, mestre.
E para horror de Harry, uma voz respondeu, e a voz parecia vir do próprio Quirrell.
 Use o menino... Use o menino...
Quirrell voltou-se para Harry.
— É... Potter vem cá.
E bateu palmas uma vez e as cordas que prendiam Harry caíram. Harry se levantou sem pressa.
— Vem cá — repetiu Quirrell. — Olhe no espelho e me diga o que vê.
Harry foi até ele.
"Preciso mentir, pensou desesperado". “Preciso olhar e mentir sobre o que vejo, é isso.”
Quirrell aproximou-se de Harry pelas costas. Harry respirou o cheiro esquisito que parecia vir do turbante de Quirrell. Fechou os olhos, adiantou-se para se postar na frente do espelho, e tomou a abri-los.
A princípio viu a sua imagem pálida e apavorada. Mas um segundo depois, a imagem sorriu para ele. Levou a mão ao bolso e tirou uma pedra cor de sangue. Aí piscou e devolveu a pedra ao bolso e ao fazer isto, Harry sentiu uma coisa pesada cair dentro do seu bolso de verdade. De alguma forma inacreditável
 estava de posse da Pedra.
— E então? — perguntou Quirrell impaciente. — O que é que você está vendo?
Harry armou-se de coragem.
— Estou me vendo apertando a mão de Dumbledore — inventou. — Ganhei o campeonato das casas para Grifinória.
Quirrell xingou outra vez.
— Saia do meu caminho — disse. Quando Harry se afastou, sentiu a Pedra Filosofal comprimir sua coxa. Será que tinha coragem para tentar fugir?
Mas não dera cinco passos quando uma voz alta falou, embora os lábios de Quirrell não estivessem se mexendo.
 Ele está mentindo... Ele está mentindo...
— Potter, volte aqui! — gritou Quirrell — Diga-me a verdade! O que foi que você acabou de ver?
A voz alta tomou a falar.
 Deixe-me falar com ele... Cara a cara...
— Mestre, o senhor não está bastante forte!
 Estou bastante forte... Para isso...
Harry se sentiu como se o visgo do diabo o tivesse pregado no chão. Não conseguia mover nem um músculo. Petrificado, viu Quirrell erguer os braços e começar a desenrolar o turbante. O que estava acontecendo? O turbante caiu. A cabeça de Quirrell parecia estranhamente pequena sem ele. Então ele virou de costas sem sair do lugar.
Harry poderia ter gritado, mas não conseguiu produzir nem um som. Onde deveria estar a parte de trás da cabeça de Quirrell, havia um rosto, o rosto mais horrível que Harry já vira. Era branco-giz com intensos olhos vermelhos e fendas no lugar das narinas, como uma cobra.
 Harry Potter... — falou o rosto.
Harry tentou dar um passo para trás, mas suas pernas não obedeceram.
 Está vendo no que me transformei? — disse o rosto. — Apenas uma sombra vaporosa. Só tenho forma quando posso compartilhar o corpo de alguém... Mas sempre houve gente disposta a me deixar entrar no seu coração e na sua mente... O sangue do unicórnio me fortaleceu, nessas últimas semanas... Você viu o fiel Quirrell bebendo-o por mim na floresta... E uma vez que eu tenha o elixir da vida, poderei criar um corpo só meu... Agora... Por que você não me dá essa pedra no seu bolso?
Então ele sabia. A sensibilidade voltou repentinamente as pernas de Harry. Ele cambaleou para trás.
 Não seja tolo — rosnou o rosto. — É melhor salvar sua vida e se unir a mim... Ou vai ter o mesmo fim dos seus pais... Eles morreram suplicando piedade...
— MENTIRA! — gritou Harry inesperadamente Quirrell. estava andando de costas para ele, de modo que Voldemort pudesse vê-lo. O rosto malvado sorria agora.
 Que comovente... — sibilou. — Sempre dei valor à coragem... E, menino, seus pais foram corajosos. Matei seu pai primeiro e ele me enfrentou com coragem... Mas sua mãe não precisava ter morrido... Estava tentando protegê-lo... Agora me dê a pedra, a não ser que queira que a morte dela tenha sido em vão.
— Nunca!
Harry saltou para a porta em chamas, mas Voldemort gritou:
 AGARRE-O!
E, no instante seguinte, Harry sentiu a mão de Quirrell fechar-se em torno de seu pulso. E, ao mesmo tempo, uma dor fria como uma agulhada queimou sua cicatriz, parecia que sua cabeça ia se rachar em dois, ele berrou, lutando com todas as forças e, para sua surpresa, Quirrell largou-o. A dor em sua cabeça diminuiu, ele olhou alucinado à volta para ver onde fora Quirrell e o viu dobrar de dor, examinando os dedos, eles se enchiam de bolhas, diante dos seus olhos.
 Agarre-o! Agarre-o! — esganiçou-se Voldemort outra vez e Quirrell investiu, derrubando Harry no chão, caindo por cima dele, as duas mãos apertando o pescoço do menino, a cicatriz de Harry quase o cegava de dor, contudo ele via Quirrell urrar de agonia.
— Mestre, não posso segurá-lo. Minhas mãos. Minhas mãos!
E Quirrell, embora prendendo Harry no chão com os joelhos, largou seu pescoço e arregalou os olhos, perplexo, para as palmas das mãos, elas pareciam queimadas, vermelhas, em carne viva.
 Então o mate, seu tolo, e acabe com isso! — guinchou Voldemort.
Quirrell levantou a mão para jogar uma praga letal, mas Harry, por instinto, esticou as mãos e agarrou a cara de Quirrell.
— AAAAI!
Quirrell saiu de cima dele, seu rosto se encheu de bolhas também, e então Harry entendeu: Quirrell não podia tocar sua pele, sem sofrer dores terríveis, sua única chance era dominar Quirrell, causar-lhe dor suficiente para impedi-lo de lançar feitiços.
Harry ficou em pé de um salto, agarrou Quirrell pelo braço e segurou-o com toda a força que pôde. Quirrell berrou e tentou se desvencilhar, a dor na cabeça de Harry estava aumentando, ele não conseguia enxergar, ouvia os gritos terríveis de Quirrell e os berros de Voldemort "MATE-O! MATE-O!" e outras vozes, talvez dentro de sua própria cabeça, chamando "Harry! Harry”!
Sentiu o braço de Quirrell desprender-se com força de sua mão, teve certeza de que tudo estava perdido e mergulhou na escuridão, cada vez mais profunda.
Alguma coisa dourada estava brilhando logo acima dele. O pomo! Tentou agarrá-lo, mas seus braços estavam muito pesado. Piscou os olhos. Não era o pomo. Eram óculos. Que estranho.
Piscou os olhos outra vez. O rosto sorridente de Alvo Dumbledore entrou em foco curvado sobre ele.
— Boa tarde, Harry — disse Dumbledore.
Harry fixou o olhar nele. Então se lembrou.
— Professor! A Pedra! Foi Quirrell! Ele apanhou a Pedra! Professor, depressa...
— Acalme-se, menino, você está um pouco atrasado. Quirrell não apanhou a Pedra.
— Então quem apanhou? Professor? Eu...
— Harry, por favor, relaxe ou Madame Pomfrey vai mandar me expulsar.
Harry engoliu em seco e olhou a sua volta. Percebeu que devia estar na ala do hospital. Achava-se deitado numa cama com lençóis de linho brancos e do seu lado havia uma mesa atulhada do que parecia ser a metade da loja de doces.
— Presentes dos seus amigos e admiradores — esclareceu Dumbledore, sorrindo. — Aquilo que aconteceu nas masmorras entre você e o professor Quirrell é segredo absoluto, por isso, é claro, a escola inteira já sabe. Acredito que os nossos amigos, os Srs. Fred e Jorge Weasley foram os responsáveis pela tentativa de lhe mandar um assento de vaso sanitário. Com certeza acharam que você ia achar engraçado. Madame Pomfrey, porém, achou que poderia ser pouco higiênico e o confiscou.
— Há quanto tempo estou aqui?
— Três dias. O Sr. Ronald Weasley e a Srta. Granger vão se sentir muito aliviados por você ter voltado a si, estavam muitíssimo preocupados.
— Mas, professor, a Pedra...
— Já vi que você não se deixa distrair. Muito bem. A Pedra. O Professor Quirrell não conseguiu tirá-la de você. Cheguei a tempo de impedir que isto acontecesse, embora você estivesse se defendendo muito bem sozinho, devo dizer.
— O senhor chegou lá? Recebeu a coruja de Hermione?
— Devemos ter cruzado no ar. Assim que cheguei a Londres, tornou-se claro para mim que o lugar onde deveria estar era aquele de onde acabara de sair. Cheguei a tempo de tirar Quirrell de cima de você...
— Então foi o senhor.
— Receei que tivesse chegado tarde demais.
— Quase chegou. Eu não poderia ter mantido Quirrell afastado da Pedra por muito mais tempo...
— Não da Pedra, menino, de você. O esforço que você fez quase o matou. Por um instante terrível, receei que tivesse matado. Quanto à Pedra, ela foi destruída.
— Destruída! — exclamou Harry sem entender — Mas o seu amigo... Nicolau Flamel...
— Ah! Você já ouviu falar no Nicolau? — perguntou Dumbledore, parecendo encantado. — Você fez mesmo a coisa certa, não foi? Bom, Nicolau e eu tivemos uma conversinha e concordamos que assim era melhor.
— Mas isto quer dizer que ele e a mulher vão morrer, não é?
— Eles têm elixir suficiente para deixar os negócios em ordem e então, é, eles vão morrer.
Dumbledore sorriu ao ver a expressão de surpresa no rosto de Harry.
— Para alguém jovem como você, tenho certeza de que isto parece incrível, mas para Nicolau e Perenelle, na verdade, é como se fossem deitar depois de um dia muito, muito longo. Afinal para a mente bem estruturada, a morte é apenas uma grande aventura seguinte. Você sabe, a Pedra não foi uma coisa tão boa assim. Todo o dinheiro e a vida que a pessoa poderia querer! As duas coisas que a maioria dos seres humanos escolheriam em primeiro lugar. O problema é que os humanos têm o condão de escolher exatamente as coisas que são piores para eles.
Harry ficou ali deitado, sem encontrar o que responder. Dumbledore cantarolou um pouquinho e sorriu para o teto.
— Professor? — disse Harry, — Estive pensando... Professor, mesmo que a Pedra tenha sido destruída, Vol... Quero dizer, o Senhor-Sabe-Quem...
— Chame-o de Voldemort. Sempre chame as coisas pelo nome que têm. O medo de um nome aumenta o medo da coisa em si.
— Sim, senhor. Bem, Voldemort vai tentar outras maneiras de voltar, não vai? Quero dizer, ele não foi de vez, foi?
— Não, Harry, não foi. Continua por aí em algum lugar, talvez procurando outro corpo para compartilhar... Sem estar propriamente vivo ele não pode ser morto. Abandonou Quirrell à morte, ele demonstra a mesma falta de piedade tanto com os amigos quanto com os inimigos. No entanto, Harry, embora você talvez tenha apenas retardado a volta dele ao poder, da próxima vez só precisaremos de outro alguém que esteja preparado para lutar o que parece ser uma batalha perdida. E se ele for retardado repetidamente, ora, talvez nunca retome o poder.
Harry concordou com um gesto, mas parou na mesma hora, porque o aceno fez-lhe doer a cabeça. Então disse:
— Professor, há outras coisas que gostaria de saber, se o senhor puder me dizer... Coisas que eu gostaria de saber, a verdade...
— A verdade — suspirou Dumbledore — é uma coisa bela e terrível, e, portanto deve ser tratada com grande cautela. Mas, vou responder às suas perguntas, a não ser que haja uma boa razão para não fazê-lo, caso em que eu peço que me perdoe. Não vou, é claro, mentir.
— Bom... Voldemort disse que só matou minha mãe porque ela tentou impedi-lo de me matar. Mas por que, afinal, ele iria querer me matar?
Dumbledore suspirou muito profundamente desta vez.
— Que pena, a primeira coisa que você me pergunta, eu não vou poder responder. Não hoje. Não agora... Você vai saber, um dia... Por ora tire isso da cabeça, Harry. Quando você for mais velho... Sei que detesta ouvir isso... Mas quando estiver pronto, você vai saber.
E Harry entendeu que não ia adiantar insistir.
— Mas por que Quirrell não podia me tocar?
— Sua mãe morreu para salvar você. Se existe uma coisa que Voldemort não consegue compreender é o amor. Ele não entende que um amor forte como o de sua mãe por você deixa uma marca própria. Não é uma cicatriz, não é um sinal visível... Ter sido amado tão profundamente, mesmo que a pessoa que nos amou já tenha morrido, nos confere uma proteção eterna. Está entranhada em nossa pele. Por isso Quirrell, cheio de ódio, avareza e ambição, compartindo a alma com Voldemort, não podia tocá-lo. Era uma agonia tocar uma pessoa marcada por algo tão bom.
Então, Dumbledore se interessou muito por um passarinho no peitoril da janela, o que deu tempo a Harry para enxugar os olhos com o lençol. Quando recuperou a voz, disse.
— E a capa da invisibilidade? O senhor sabe quem a mandou para mim?
— Ah, por acaso seu pai deixou-a comigo e eu achei que você talvez gostasse. — Os olhos de Dumbledore faiscaram — Coisas úteis... Seu pai usava-a principalmente para ir escondido a cozinha roubar comida, quando estava aqui.
— E tem mais uma coisa...
— Diga.
— Quirrell disse que Snape...
— O Professor Snape, Harry.
— Sim, senhor, ele... Quirrell disse que ele me odeia porque odiava meu pai. Isso é verdade?
— Bom, eles se detestavam bastante. Mas não é diferente de você com o Sr. Malfoy. E, além disso, seu pai fez uma coisa que Snape nunca pôde perdoar.
— O quê?
— Salvou a vida dele.
— O quê?
— É... — disse Dumbledore sonhador — É engraçado como a cabeça das pessoas funciona, não é? O Professor Snape não conseguiu suportar o fato de estar em dívida com o seu pai. Acredito que tenha se esforçado para proteger você este ano, porque achou que isso o deixaria quite com o seu pai. Assim podia voltar a odiar a memória do seu pai em paz...
Harry tentou compreender, mas sentiu a cabeça latejar, por isso parou.
— E, professor, só mais uma coisa...
— Só essa?
— Como foi que tirei a Pedra do espelho?
— Ah, fico satisfeito que você tenha me perguntado. Foi uma das minhas idéias mais brilhantes, e cá entre nós, isto é alguma coisa. Sabe, só uma pessoa que quisesse encontrar a Pedra, encontrar sem usá-la, poderia obtê-la, de outra forma, a pessoa só iria se ver produzindo ouro e bebendo elixir da vida. O meu cérebro às vezes surpreende até a mim... Agora chega de perguntas. Sugiro que comece a comer esses doces. Ah, feijõezinhos de todos os sabores! Quando eu era moço tive a infelicidade de encontrar um com gosto de vômito, e desde então receio que tenha perdido o gosto por eles. Mas acho que não corro perigo com um gostoso caramelo, não acha? — E sorrindo jogou um feijãozinho caramelo escuro na boca. Então se engasgou e disse:
— Que pena! Cera de ouvido!
Madame Pomfrey, a encarregada do hospital, era uma boa pessoa, mas muito rigorosa.
— Só cinco minutos — suplicou Harry.
— Absolutamente não.
— A senhora deixou o Professor Dumbledore entrar.
— Bom, é claro, ele é o diretor, é muito diferente. Você precisa descansar.
— Estou descansando, olhe, deitado e tudo. Ah, por favor, Madame Pomfrey.
— Ah, muito bem. Mas só cinco minutos.
E ela deixou Rony e Hermione entrarem.
— Harry!
Hermione parecia prestes a abraçá-lo outra vez, mas Harry gostou que tivesse se contido porque a cabeça dele ainda estava muito doída.
— Ah, Harry, nos estávamos certos que você ia... Dumbledore estava tão preocupado...
— A escola inteira não fala em outra coisa — disse Rony — Mas, no duro, o que foi que aconteceu?
Era uma das raras ocasiões em que a historia verdadeira é ainda mais estranha e excitante do que os boatos fantásticos. Harry contou tudo: Quirrell, o espelho, a Pedra e Voldemort.
Rony e Hermione eram bons ouvintes, exclamavam nas horas certas e quando Harry lhes disse o que havia sob o turbante de Quirrell, Hermione soltou um grito.
— Então a Pedra acabou? — perguntou Rony finalmente. – Flamel simplesmente vai morrer?
— Foi o que perguntei, mas Dumbledore acha que... Como foi mesmo?... Que para a mente bem estruturada a morte é a grande aventura seguinte.
— Eu sempre disse que ele era biruta — disse Rony, parecendo muito impressionado com a grande loucura do seu herói.
— Então o que aconteceu com vocês dois? — perguntou Harry.
— Bom, eu voltei sem problemas — disse Hermione — Fiz Rony voltar a si, isso levou algum tempo, e estávamos correndo para o corujal para nos comunicar com Dumbledore quando o encontramos no saguão de entrada, ele já sabia, e só disse “Harry foi atrás dele, não foi?", e saiu desabalado para o terceiro andar.
— Você acha que ele queria que você fizesse aquilo? — perguntou Rony. — Mandou a capa do seu pai e tudo o mais?
— Bom! — explodiu Hermione — Se ele fez isso... Quero dizer... Isso é horrível... Você podia ter sido morto.
— Não, não é horrível — disse Harry pensativo — Ele é um homem engraçado, o Dumbledore. Acho que meio que queria me dar uma chance. Acho que sabe mais ou menos tudo o que acontece por aqui, sabe? Imagino que tivesse uma boa idéia do que íamos tentar fazer e em lugar de nos impedir, ele simplesmente ensinou o suficiente para nos ajudar. Não acho que tenha sido por acaso que me deixou descobrir como o espelho funcionava. Era quase como se pensasse que eu tinha o direito de enfrentar Voldemort se pudesse...
— É, a marca de Dumbledore, com certeza — disse Rony orgulhoso. — Olhe, você precisa estar bom para a festa de fim de ano, amanhã. Os pontos já foram todos computados e Sonserina ganhou, é claro. Você faltou ao último jogo de Quadribol, fomos estraçalhados por Corvinal sem você. Mas a comida vai ser legal.
Nesse instante, Madame Pomfrey irrompeu no quarto.
— Vocês já estão aí há quinze minutos, agora FORA — disse com firmeza.
Depois de uma boa noite de sono, Harry se sentiu quase normal.
— Quero ir à festa — disse a Madame Pomfrey, quando ela estava arrumando suas muitas caixas de doces — Posso, não posso?
— O Professor Dumbledore disse que devo deixar você ir — respondeu ela fungando, como se, na sua opinião, o Professor Dumbledore não percebesse os riscos que uma festa pode oferecer — E você tem outra visita.
— Que bom. Quem é?
Hagrid foi-se esgueirando pela porta enquanto Harry indagava.
Em geral quando estava dentro de casa, Hagrid parecia demasiado grande para que o deixassem entrar. Sentou-se ao lado de Harry, deu uma olhada e caiu no choro.
— É... Tudo... Minha... Culpa! — soluçou, o rosto nas mãos. — Eu informei ao mal como passar por Fofo! Eu informei! Era a única coisa que ele não sabia e eu informei! Você podia ter morrido! Tudo por causa de um ovo de dragão! Nunca mais vou beber! Eu devia ser demitido e mandado viver como trouxa!
— Rúbeo! — chamou Harry chocado por vê-lo sacudir de tristeza e remorso, as grandes lágrimas se infiltrando pela barba — Rúbeo, ele teria descoberto de qualquer maneira, estamos falando de Voldemort, teria descoberto mesmo que você não tivesse informado.
— Mas você podia ter morrido! — soluçou Hagrid — E não diga o nome dele!
— VOLDEMORT! — berrou Harry, e Hagrid levou um choque tão grande que parou de chorar.
— Estive com ele cara a cara e vou chamá-lo pelo nome que tem. Por favor, anime-se, Rúbeo, salvamos a Pedra, ela foi destruída e ele não poderá usá-la. Coma um sapo de chocolate. Tenho um montão...
Hagrid secou o nariz como dorso da mão e disse:
— Ah, isso me lembra. Trouxe um presente para você.
— Não é um sanduíche de carne de arminho, é? — perguntou Harry. Abriu-o curioso e, finalmente, Hagrid deu uma risadinha.
— Não, Dumbledore me deu folga ontem para eu providenciar. Claro, devia mais é ter me demitido. Em todo o caso, trouxe isto para você...
Parecia ser um belo livro encadernado em couro. Harry abriu-o, curioso. Estava cheio de retratos de bruxos, de cada página, sorrindo e acenando para ele, estavam sua mãe e seu pai.
— Mandei corujas para todos os velhos amigos de escola de seu pai e sua mãe, pedindo fotos... E sabia que você não tinha nenhuma... Gostou?
Harry nem conseguiu falar, mas Hagrid compreendeu.
Harry desceu para a festa de fim de ano sozinho aquela noite.
Atrasara-se com os cuidados de Madame Pomfrey, que insistiu em lhe fazer um último check-up, de modo que o salão principal já se enchera. Estava decorado com as cores de Sonserina, verde e prata, para comemorar sua conquista do campeonato das casas pelo sétimo ano consecutivo. Uma enorme bandeira com a serpente de Sonserina cobria a parede atrás da mesa principal.
Quando Harry entrou houve um silêncio momentâneo e em seguida todos começaram a falar alto e ao mesmo tempo. Ele se sentou discretamente numa cadeira entre Rony e Hermione à mesa da Grifinória e tentou fingir que não via as pessoas se levantarem para espiá-lo.
Felizmente, Dumbledore chegou instantes depois. A algazarra foi serenando.
— Mais um ano que passou! Disse Dumbledore alegremente. — E preciso incomodar vocês com a falação asmática de um velho antes de cairmos de boca nesse delicioso banquete. E que ano tivemos! Espero que as suas cabeças estejam um pouquinho menos ocas do que antes... Vocês têm o verão inteiro para esvaziá-las muito bem, antes do próximo ano letivo. Agora, pelo que entendi, a Taça das Casas deve ser entregue e a contagem de pontos é a seguinte: em quarto lugar Grifinória com trezentos e doze pontos, em terceiro, Lufa-Lufa, com trezentos e cinqüenta e dois pontos, Corvinal, com quatrocentos e vinte e seis, e Sonserina com quatrocentos e setenta e dois pontos.
E uma tempestade de pés e mãos batendo irrompeu da mesa de Sonserina. Era uma cena nauseante.
— Sim, senhores, Sonserina está de parabéns. No entanto, temos de levarem conta os recentes acontecimentos.
A sala mergulhou em profundo silêncio.
— Tenho alguns pontos de última hora para conferir. Vejamos. Sim... Primeiro: ao Sr. Ronald Weasley...
O rosto de Rony se coloriu de vermelho vivo, parecia um rabanete que apanhara sol demais na praia.
—... Pelo melhor jogo de xadrez presenciado por Hogwarts em muitos anos, eu confiro à Grifinória cinqüenta pontos.
Os vivas da Grifinória quase levantaram o teto encantado, as estrelas lá no alto pareceram estremecer... Ouviram Percy dizer aos outros monitores:
 "É o meu irmão, sabem! O meu irmão caçula! Venceu uma partida no jogo vivo de xadrez de McGonagall!”
Finalmente voltaram a fazer silêncio.
— Segundo: a Senhorita Hermione Granger... Pelo uso de lógica inabalável diante do fogo, concedo à Grifinória cinqüenta pontos.
Hermione escondeu o rosto nos braços, Harry teve a forte suspeita de que caíra no choro. Os alunos da Grifinória por volta da mesa não cabiam em si de contentes, tinham subido cem pontos.
— Terceiro: ao Sr. Harry Potter — A sala ficou mortalmente silenciosa. — Pela frieza e excepcional coragem, concedo à Grifinória sessenta pontos.
A balbúrdia foi ensurdecedora. Os que conseguiam somar enquanto berravam de ficar roucos sabiam que Grifinória agora chegara a quatrocentos e setenta e dois pontos — exatamente o mesmo que Sonserina. Precisariam sortear a Taça das Casas, se ao menos Dumbledore tivesse dado a Harry mais um pontinho.
Dumbledore ergueu a mão. A sala gradualmente se aquietou.
— Existe todo tipo de coragem — disse Dumbledore sorrindo. — É preciso muita audácia para enfrentarmos os nossos inimigos, mas igual audácia para defendermos os nossos amigos. Portanto, concedo dez pontos ao Sr. Neville Longbottom.
Alguém que estivesse do lado de fora do salão principal poderia ter pensado que ocorrera uma explosão, tão alta foi a barulheira que irrompeu na mesa da Grifinória. Harry, Rony e Hermione se levantaram para gritar e dar vivas enquanto Neville, branco de susto, desaparecia debaixo de uma montanha de gente que o abraçava. Jamais ganhara um único ponto para Grifinória antes. Harry, ainda gritando, cutucou Rony nas costelas indicando Malfoy, que não poderia ter feito uma cara mais perplexa e horrorizada se tivesse acabado de ser encantado com o
 Feitiço do Corpo Preso.
— O que significa — continuou Dumbledore procurando se sobrepor à tempestade de aplausos, porque até Corvinal e Lufa-Lufa estavam comemorando a derrota de Sonserina — que precisamos fazer uma pequena mudança na decoração.
E, dizendo isto, bateu palmas. Num instante, os panos verdes se tornaram vermelhos e, os prateados, dourados, a grande serpente de Sonserina desapareceu e o imponente leão da Grifinória tomou o seu lugar, Snape apertou a mão da Professora Minerva, com um horrível sorriso amarelo. Seu olhar encontrou o de Harry e o menino percebeu, no mesmo instante, que os sentimentos de Snape com relação a ele não tinham mudado nem um pingo. Isto não o preocupou. Parecia-lhe que sua vida voltaria ao normal no próximo ano, ou tão normal quanto ela poderia ser em Hogwarts.
Foi a melhor noite da vida de Harry, melhor do que a vitória no Quadribol ou a ceia de Natal ou o encontro com o trasgo... Jamais esqueceria esta noite.
Harry quase esquecera que os resultados dos exames ainda estavam por vir, mas eles não deixaram de vir, para sua grande surpresa, tanto ele quanto Rony passaram com boas notas, Hermione, é claro, foi a melhor do ano. Até Neville passou raspando, sua boa nota em Herbologia compensou a péssima nota em Poções. Tinham tido esperanças de que Goyle, que era quase tão burro quanto era mau, fosse expulso, mas ele também passou.
Foi uma pena, mas como disse Rony, não se podia ter tudo na vida.
E, de repente, seus guarda-roupas ficaram vazios, os malões arrumados, o sapo de Neville foi encontrado escondido em um canto do banheiro, as notas foram entregues a todos os alunos, com o aviso de que não fizessem bruxarias durante as férias.
— Eu sempre tenho a esperança de que eles se esqueçam de entregar as notas e o aviso — lamentou Fred Weasley.
Hagrid estava a postos para levá-los à flotilha de barcos que fazia a travessia do lago, e, no momento seguinte, estavam embarcando no Expresso de Hogwarts, conversando e rindo à medida que os campos se tornavam mais verdes e mais cuidados, comendo feijõezinhos de todos os sabores enquanto atravessavam as cidades dos trouxas, trocando as vestes de bruxos pelos blusões e paletós, parando na plataforma 9 e ½ na estação de King's Cross.
Levou um bom tempo para todos desembarcarem na plataforma. Um guarda muito velho estava postado na saída e os deixava passar em grupos de dois e três para não chamarem atenção ao irromper todos ao mesmo tempo por uma parede sólida, assustando os trouxas.
— Vocês precisam vir passar uns dias conosco — disse Rony — Os dois. Vou mandar uma coruja para vocês.
— Obrigado — disse Harry — Preciso ter alguma coisa por que esperar.
As pessoas passavam empurrando-se ao se dirigirem para a saída para o mundo dos trouxas. Alguns gritavam.
— Tchau, Harry!
— Nos vemos por ai, Potter!
— Continua famoso — comentou Rony, sorrindo para o amigo.
— Não aonde eu vou, posso lhe garantir.
Ele, Rony e Hermione passaram juntos pelo portão.
— Olha lá ele, mamãe, olha lá ele, olha!
Era Gina Weasley, a irmãzinha de Rony, mas não apontava para Rony.
— Harry Potter! — gritou com a vozinha fina. — Olhe, mamãe! Estou vendo...
— Fique quieta, Gina, é falta de educação apontar.
A Sra. Weasley sorriu para eles.
— Muito trabalho este ano?
— Muito — respondeu Harry. — Obrigado pelas barrinhas de chocolate e pelo suéter, Sra. Weasley.
— Ah, de nada, querido.
— Está pronto?
Era tio Válter, ainda com a cara vermelhona, ainda bigodudo, ainda parecendo furioso com a audácia de Harry de andar carregando a coruja numa gaiola por uma estação cheia de gente normal. Atrás dele, achava-se tia Petúnia e Duda, parecendo aterrorizados só de olhar para Harry.
— Vocês devem ser a família de Harry! — falou a Sra. Weasley.
— Por assim dizer — respondeu tio Válter — Ande logo, menino, não temos o dia inteiro. — E se afastou.
Harry ainda demorou para trocar uma última palavrinha com Rony e Hermione.
— Vejo vocês durante as férias, então.
— Espero que você tenha... ah... umas boas férias — disse Hermione, olhando hesitante para tio Válter, espantada que alguém pudesse ser tão desagradável.
— Ah, claro que sim — respondeu Harry, e eles ficaram surpresos com o sorriso que se espalhava pelo seu rosto. — Eles não sabem que não podemos fazer bruxarias em casa. Vou me divertir à beça com o Duda este verão...

Harry Potter e a pedra filosofal

Capítulo 16 - No alçapão

No futuro, Harry nunca conseguiria lembrar muito bem como conseguiu prestar seus exames enquanto esperava Voldemort irromper a qualquer instante pela porta. Contudo os dias foram se passando lentamente e não havia dúvidas de que Fofo continuava vivo e bem seguro atrás da porta trancada.
Fazia um calor de rachar, principalmente na sala das provas escritas. Os alunos tinham recebido penas novas e especiais para fazê-las, previamente encantadas com um feitiço anti-cola.
Houve exames práticos também. O Professor Flitwick os chamou à sala de aula, um a um, para verificar se conseguiam fazer um abacaxi sapatear na mesa. A Professora Minerva observou-os transformarem um camundongo em uma caixa de rapé e conferiu pontos pela beleza da caixa, e os descontou quando a caixa tinha bigodes. Snape deixou-os nervosos, bafejando em seu pescoço enquanto tentavam se lembrar como fazer a poção do esquecimento.
Harry fez o melhor que pôde, tentando ignorar as dores lacinantes que sentia na testa e que o incomodavam desde a ida a floresta. Neville achou que Harry estava com uma crise de nervos provocada pelos exames, porque Harry não conseguia dormir, mas a verdade é que seu antigo pesadelo o mantinha acordado, só que agora estava pior que nunca, pois havia nele uma figura encapuzada que pingava sangue.
Talvez fosse porque eles não tinham visto o que Harry vira na floresta, ou porque não tinham cicatrizes que queimavam na testa, mas Rony e Hermione não pareciam tão preocupados com a Pedra quanto Harry. A lembrança de Voldemort sem dúvida os apavorava, mas não os visitava em sonhos, e estavam tão ocupados com as revisões que não tinham muito tempo para pensar no que Snape ou qualquer outro podia estar aprontando.
O último exame foi de História da Magia. Uma hora respondendo a perguntas sobre velhos bruxos gagás que inventaram caldeirões automexíveis e estariam livres, livres por uma semana maravilhosa até saberem os resultados dos exames.
Quando o fantasma do Professor Binns mandou-os descansar as penas e enrolar os pergaminhos, Harry não pôde deixar de dar vivas com os colegas.
— Foi muito mais fácil do que pensei — comentou Hermione, quando eles se reuniram aos numerosos alunos que saíam para os jardins ensolarados. — Eu nem precisava ter aprendido o Código de Conduta do lobisomem de 1637 nem a revolta de Elfric, o Ambicioso.
Hermione sempre gostava de repassar as provas depois, mas Rony disse que isso o fazia se sentir mal. Assim, caminharam até o lago e se sentaram à sombra de uma árvore. Os gêmeos Weasley e Lino Jordan faziam cócegas nos tentáculos de uma lula gigantes, que tomava sol na água mais rasa.
— Acabaram-se as revisões — suspirou Rony, contente, esticando-se na grama. — Você podia fazer uma cara mais alegre, Harry, temos uma semana inteira até descobrir se nos demos mal, não precisa se preocupar agora.
Harry esfregava a testa.
— Eu gostaria de saber o que significa isso! — explodiu aborrecido. — Minha cicatriz não para de doer, já senti isso antes, mas nunca com tanta freqüência.
— Procure Madame Pomfrey — sugeriu Hermione.
— Eu não estou doente — respondeu Harry. — Acho que é um aviso... Significa que o perigo está se aproximando...
Rony não conseguiu se preocupar estava quente demais.
— Harry, relaxe. Hermione tem razão, a Pedra está segura enquanto Dumbledore estiver por aqui. Em todo o caso, nunca encontramos nenhuma prova de que Snape tenha descoberto como passar por Fofo. Ele quase teve a perna arrancada uma vez, não vai tentar outra tão cedo. E Neville vai jogar Quadribol na equipe da Inglaterra antes que Hagrid traia Dumbledore.
Harry concordou, mas não conseguiu se livrar da sensação que o atormentava de que esquecera de fazer alguma coisa, algo importante. Quando tentou explicar o que sentia, Hermione disse:
— Isso são os exames. Acordei a noite passada e já tinha lido metade dos meus apontamentos sobre Transfiguração quando me lembrei que já tínhamos feito a prova.
Harry tinha certeza de que a sensação de inquietude não tinha nada a ver com os estudos. Acompanhou com os olhos uma coruja planar pelo céu azul em direção à escola, uma carta no bico.
Hagrid era o único que lhe mandava cartas. Hagrid jamais trairia Dumbledore. Hagrid jamais contaria a ninguém como passar por Fofo... Jamais... Mas...
Harry pôs-se de pé de um salto.
— Onde é que você está indo? — perguntou Rony sonolento.
— Acabei de me lembrar de uma coisa. — Estava branco — Temos que ver Rúbeo agora.
— Por quê? — ofegou Hermione, correndo para alcançá-lo.
— Vocês não acham um pouco estranho — disse Harry, subindo, às carreiras, a encosta gramada — que o que Rúbeo mais quer na vida é um dragão, e aparece um estranho que por acaso tem ovos de dragão no bolso, quando isso é contra as leis dos bruxos? Que sorte encontrar Rúbeo, não acham? Por que não percebi isto antes.
— Do que é que você está falando? — perguntou Rony, mas Harry correndo pelos jardins em direção à floresta, não respondeu.
Hagrid estava sentado em um cadeirão na frente da casa: tinha as pernas das calças e as mangas enroladas e descascava ervilhas em uma grande tigela.
— Olá — disse, sorrindo — Terminaram os exames? Têm tempo para um refresco?
— Temos, obrigado — disse Rony, mas Harry o interrompeu.
— Não, estamos com pressa, Rúbeo, preciso lhe perguntar uma coisa. Sabe aquela noite que você ganhou o Norberto? Que cara tinha o estranho com quem você jogou cartas?
— Não lembro — respondeu Hagrid com displicência —, ele não quis tirar a capa...
Viu os três fazerem cara de espanto e ergueu as sobrancelhas.
— Não é nada de mais, tem muita gente esquisita no Hog's Head, o pub do povoado. Podia ser um vendedor de dragões, não podia? Nunca vi a cara dele, ele não tirou o capuz.
Harry se abaixou ao lado da tigela de ervilhas.
— O que foi que você conversou com ele, Rúbeo? Chegou a mencionar Hogwarts?
— Talvez — disse Hagrid, franzindo a testa, tentando se lembrar — E... Ele me perguntou o que eu fazia e eu respondi que era guarda-caça aqui... Depois perguntou de que tipo de bichos eu cuidava... Então eu disse... E disse também que o que sempre quis ter foi um dragão... Então... Não me lembro muito bem... Porque ele não parava de pagar bebidas para mim... Deixa eu ver.. Ah, sim, então ele disse que tinha um ovo de dragão, e que podíamos disputá-lo num jogo de cartas se eu quisesse... Mas precisava ter certeza de que eu podia cuidar do bicho, não queria que ele fosse parar num asilo de velhos... Então respondi que depois do Fofo, um dragão seria moleza...
— E ele pareceu interessado no Fofo? — perguntou Harry, tentando manter a voz calma.
— Bom... Pareceu... Quantos cachorros de três cabeças a pessoa encontra por ai, mesmo em Hogwarts? Então contei a ele que Fofo é uma doçura se a pessoa sabe como acalmá-lo, é só tocar um pouco de música e ele cai no sono...
Hagrid, de repente, fez cara de horrorizado.
— Eu não devia ter-lhe dito isto! — exclamou. — Esqueçam que eu disse isto! Ei, aonde é que vocês vão?
Harry, Rony e Hermione não se falaram até parar no saguão de entrada, que parecia muito frio e sombrio depois da caminhada pelos jardins.
— Temos de procurar Dumbledore — falou Harry — Rúbeo contou àquele estranho como passar por Fofo e quem estava debaixo daquela capa era ou o Snape ou o Voldemort, deve ter sido fácil, depois que embebedou Rúbeo. Só espero que Dumbledore acredite na gente. Firenze talvez confirme, se Agouro não o impedir. Onde é a sala de Dumbledore?
Eles olharam a toda volta, na esperança de ver uma placa apontando a direção certa. Nunca alguém lhes havia dito onde trabalhava Dumbledore, tampouco conheciam alguém que tivesse sido mandado à sala dele.
— Acho que teremos de... — começou Harry, mas inesperadamente ouviram uma voz do outro lado do saguão.
— Que é que vocês estão fazendo aqui dentro?
Era a Professora Minerva McConagall, carregando uma pilha de livros.
— Queremos ver o Professor Dumbledore — disse Hermione enchendo-se de coragem, pensaram Harry e Rony.
— Ver o Professor Dumbledore? — a Professora Minerva repetiu, como se isso fosse uma coisa muito suspeita para alguém querer fazer — Por quê?
Harry engoliu em seco. “E agora?”
— É uma espécie de segredo — disse, mas desejou na mesma hora que não tivesse dito, porque as narinas da Professora Minerva se alargaram.
— O Professor Dumbledore saiu faz dez minutos — informou ela secamente — Recebeu uma coruja urgente do Ministro da Magia e partiu em seguida para Londres.
— Ele saiu? — exclamou Harry frenético — Agora?
— O Professor Dumbledore é um grande mago, Potter, o tempo dele é muito solicitado.
— Mas é importante.
— Alguma coisa que você tenha a dizer é mais importante do que o Ministro da Magia, Potter?
— Olhe — disse Harry, mandando a cautela às favas —, professora... É sobre a Pedra Filosofal...
Seja o que for que a Professora Minerva esperava, certamente não era isso. Os livros que levava despencaram dos seus braços, mas ela não os apanhou.
— Como é que vocês sabem? — deixou escapar.
— Professora, acho... Que Sn... Que alguém vai tentar roubar a pedra. Preciso falar com o Professor Dumbledore.
Ela o olhou com uma mescla de choque e desconfiança.
— O Professor Dumbledore volta amanhã — disse finalmente. — Não sei como descobriu sobre a Pedra, mas fique tranqüilo, não é possível ninguém roubá-la, está muitíssimo bem protegida.
— Mas, professora...
— Potter sei do que estou falando. — Curvou-se e recolheu os livros caídos — Sugiro que vocês voltem para fora e aproveitem o sol.
Mas eles não voltaram.
— É hoje à noite — disse Harry, quando teve certeza de que a Professora Minerva não podia mais ouvi-los. — Snape vai entrar no alçapão hoje à noite. Ele já descobriu tudo o que precisa e agora tirou Dumbledore do caminho. Foi ele quem mandou aquela carta, aposto que o Ministro da Magia vai levar um choque quando Dumbledore aparecer.
— Mas o que é que podemos...
Hermione perdeu a fala. Harry e Rony se viraram, Snape estava parado ali.
— Boa tarde — disse com suavidade.
Eles o encararam.
— Vocês não deviam estar dentro do castelo num dia como este — falou com um sorriso estranho e torto.
— Estávamos... — começou Harry, sem fazer idéia do que ia dizer.
— Vocês precisam ter mais cuidado. Andando por aqui assim, as pessoas vão pensar que estão armando alguma coisa. E Grifinória realmente não pode se dar ao luxo de perder mais nenhum ponto, não é mesmo?
Harry corou. Viraram-se para sair, mas Snape os chamou de volta.
— E fique avisado, Potter, se ficar perambulando outra vez à noite, vou providenciar pessoalmente para que seja expulso. Bom dia para vocês.
E saiu em direção à sala de professores. Lá fora, nos degraus de pedra, Harry virou-se para os outros.
— Certo isto é o que vamos fazer — cochichou com urgência. — Um de nós tem que ficar de olho no Snape, esperar do lado de fora da sala de professores e segui-lo se ele sair. Hermione é melhor você fazer isso.
— Por que eu?
— É óbvio — disse Rony. — Você pode fingir que está esperando pelo Professor Flitwick sabe, como é, — E fazendo voz de falsete — "Ah, Professor Flitwick. Estou tão preocupada, acho que errei a questão catorze b...”
— Ah, cala a boca — disse Hermione, mas concordou em vigiar Snape.
— E é melhor ficarmos no corredor do terceiro andar — disse Harry a Rony – Vamos.
Mas aquela parte do plano não funcionou. Assim que chegaram à porta que separava Fofo do resto da escola, a Professora Minerva apareceu de novo, e desta vez perdeu as estribeiras.
— Suponho que você ache que é mais difícil alguém passar por você do que por um pacote de feitiços! — esbravejou. — Chega de bobagens! E se eu souber que você voltou aqui outra vez, vou descontar mais cinqüenta pontos de Grifinória! É, Weasley, da minha própria casa!
Harry, e Rony voltaram à sala comunal. Harry acabara de dizer "pelo menos Hermione está na cola de Snape", quando o retrato da Mulher Gorda se abriu e Hermione entrou.
— Sinto muito, Harry — lamentou-se. — Snape saiu e me perguntou o que eu estava fazendo, então disse que estava esperando Flitwick, e Snape foi buscá-lo, e me mandei, não sei aonde ele foi.
— Bom, então acabou-se, não é? — disse Harry. Os outros dois olharam para ele. Estava pálido e seus olhos brilhavam.
— Vou sair daqui hoje à noite e vou tentar apanhar a Pedra primeiro.
— Você ficou maluco! — exclamou Rony — Você não pode! — disse Hermione — Depois do que a Professora Minerva e Snape disseram? Vai ser expulso!
— E DAÍ? — gritou Harry — Vocês não percebem? Se Snape apanhar a pedra, Voldemort vai voltar! Vocês não ouviram contar como era quando ele estava tentando conquistar o poder? Não vai haver Hogwarts para nos expulsar! Ele vai arrasar Hogwarts, ou vai transformá-la numa escola de magia negra! Perder pontos não importa mais, vocês não entendem? Acham que ele vai deixar vocês e suas famílias em paz, e Grifinória ganhar o campeonato das casas? Se eu for pego antes de conseguir a pedra, bem, vou ter que voltar para os Dursley e esperar Voldemort me encontrar lá. E só uma questão de morrer um pouquinho depois do que teria morrido, porque eu nunca vou me aliar aos partidários da magia negra! Vou entrar naquele alçapão hoje à noite e nada que vocês dois disserem vai me impedir! Voldemort matou meus pais, estão lembrados?
E olhou zangado para eles.
— Você tem razão, Harry — disse Hermione com uma vozinha fraca.
— Vou usar a capa da invisibilidade, foi uma sorte tê-la recuperado.
— Mas ela dá para esconder nós três? — perguntou Rony.
— Nós... Nós três?
— Ah, corta essa, você não acha que vamos deixar você ir sozinho?
— Claro que não — disse Hermione com energia. — Como acha que vai chegar à Pedra sem nós? E melhor eu dar uma olhada nos meus livros, talvez encontre alguma coisa útil.
— Mas se formos pegos, vocês dois vão ser expulsos também.
— Não se eu puder evitar — disse Hermione séria. — Flitwick me disse em segredo que tirei cento e vinte por cento no exame. Não vão me expulsar depois disso.
Depois do jantar os três se sentaram, nervosos, a um canto do salão comunal. Ninguém os incomodou, afinal nenhum aluno de Grifinória tinha mais nada a dizer a Harry. Esta era a primeira noite que isto não o incomodava. Hermione folheava seus apontamentos, esperando encontrar um dos feitiços que queriam anular. Harry e Rony não falavam muito. Pensavam no que estavam prestes a fazer.
A sala foi-se esvaziando, à medida que as pessoas iam se deitar.
— É melhor apanhar a capa – murmurou Rony, quando Lino Jordan finalmente saiu, se espreguiçando e bocejando. Harry correu até o dormitório às escuras. Puxou a capa e então seus olhos bateram na flauta que Hagrid lhe dera no Natal. Meteu-a no bolso para usá-la em Fofo, não se sentia muito animado a cantar.
E correu de volta ao salão comunal.
— É melhor vestirmos a capa aqui para ter certeza de que cobre nós três se Filch vir os pés da gente andando sozinhos.
— O que é que vocês estão fazendo? — perguntou uma voz a um canto da sala. Neville saiu de trás de uma poltrona, agarrando Trevo, o sapo, que parecia ter feito uma nova tentativa para ganhar a liberdade.
— Nada, Neville, nada — respondeu Harry, escondendo depressa a capa às costas.
Neville olhou bem para aquelas caras cheias de culpa.
— Vocês vão sair outra vez.
— Não, não, não — disse Hermione. — Não vamos, não. Por que você não vai se deitar, Neville?
Harry olhou para o relógio de parede junto à porta. Não podiam se dar ao luxo de perder mais tempo, Snape talvez estivesse naquele instante mesmo tocando para adormecer Fofo.
— Vocês não podem sair — disse Neville —, vocês vão ser pegos outra vez. Grifinória vai ficar ainda mais enrolada.
— Você não compreende — disse Harry — isto é importante.
Mas Neville estava claramente tomando coragem para fazer alguma coisa desesperada.
— Não vou deixar vocês irem — disse, correndo a se postar diante do buraco do retrato. — Eu... Eu vou brigar com vocês.
— Neville — explodiu Rony —, se afaste desse buraco e não banque o idiota...
— Não me chame de idiota! Acho que você não devia estar desrespeitando mais regulamentos! E foi você quem me disse para enfrentar as pessoas!
— Foi, mas não nós — respondeu Rony exasperado. — Neville, você não sabe o que está fazendo.
Ele deu um passo à frente e Neville largou Trevo, o sapo, que desapareceu de vista.
— Vem, então, tenta me bater! — disse Neville, erguendo os punhos. — Estou esperando!
Harry voltou-se para Hermione.
— Faz alguma coisa — pediu desesperado.
Hermione se adiantou,— Neville — disse ela —, eu realmente lamento muito.
Ela ergueu a varinha.
— Petrificus Totalus!— falou, apontando para Neville.
Os braços de Neville grudaram dos lados do corpo. As pernas se juntaram. Com o corpo inteiro rígido, ele balançou no mesmo lugar e, em seguida, caiu de cara no chão, duro como uma pedra.
Hermione correu para desvirá-lo. Os maxilares de Neville estavam trancados de modo que ele não podia falar. Somente os olhos se moviam, mirando-os aterrorizados.
— O que foi que você fez com ele? — sussurrou Harry.
— O Feitiço do Corpo Preso — respondeu Hermione infeliz. — Ah, Neville, me desculpe.
— Tivemos de fazer isso, Neville, não temos tempo para explicar — disse Harry.
— Você vai entender mais tarde — disse Rony, enquanto passavam por cima dele e se envolviam na capa da invisibilidade.
Mas deixar Neville deitado imóvel no chão não parecia um bom presságio. No estado de nervosismo em que estavam, cada sombra de estátua lembrava Filch, cada sopro distante do vento parecia o Pirraça assombrando-os.
Ao pé do primeiro lance de escada, encontraram Madame Nor-r-ra, esquivando-se sorrateira quase no alto.
— Ah, vamos dar um pontapé nela, só desta vez — cochichou Rony no ouvido de Harry, mas Harry balançou a cabeça. Enquanto subiam cautelosamente contornando a gata, Madame Nor-r-ra virou os olhos de lanterna para eles, mas não fez nada.
Não encontraram mais ninguém até chegarem à escada para o terceiro andar. Pirraça se balançava a meio caminho, soltando a passadeira para as pessoas tropeçarem.
— Quem está aí? — perguntou de repente quando se aproximaram. E apertou os olhos negros e malvados. — Sei que está ai, mesmo que não consiga vê-lo. Você é um vampiro, um fantasma ou um estudante nojento?
E ergueu-se no ar e flutuou, tentando ver alguém.
— Eu devia chamar o Filch, eu devia, se alguma coisa está andando por aí invisível.
Harry teve uma idéia repentina.
— Pirraça — disse num sussurro rouco —, o barão Sangrento tem suas razões para andar invisível.
Pirraça quase caiu, em choque. Recuperou-se a tempo e saiu planando a trinta centímetros dos degraus.
— Desculpe, Sua Sangüinidade, Sr. Barão, cavalheiro — disse untuoso. — Falha minha, falha minha, não o vi, claro que não, o senhor está invisível. Perdoe o velho Pirraça essa piadinha, cavalheiro.
— Tenho negócios a tratar aqui, Pirraça — cochichou Harry — Fique longe deste lugar hoje à noite.
— Vou ficar, cavalheiro, pode ter certeza de que vou ficar — prometeu o Pirraça, erguendo-se no ar outra vez. — Espero que os seus negócios corram bem, Barão, não vou perturbá-lo.
E, partiu ligeirinho.
— Genial Harry! — cochichou Rony.
Alguns segundos depois estavam lá, no corredor do terceiro andar e a porta já fora aberta.
— Bom, aqui estamos — disse Harry baixinho. — Snape já passou por Fofo.
A visão da porta aberta por alguma razão parecia causar neles a impressão do que os aguardava. Debaixo da capa, Harry se virou para os outros dois.
— Se vocês quiserem voltar, não vou culpá-los. Podem levar a capa, não vou precisar dela agora.
— Não seja burro — respondeu Rony.
— Vamos com você — disse Hermione.
Harry empurrou a porta.
Quando a porta rangeu baixinho, chegaram aos seus ouvidos rosnados surdos. Os três focinhos do cachorro farejaram furiosamente em sua direção ainda que o bicho não pudesse vê-los.
— O que é isso nos pés dele? — sussurrou Hermione.
— Parece uma harpa — respondeu Rony. — Snape deve tê-la deixado ai.
— Ele acorda no momento que se deixa de tocar — disse Harry. —Bom, aqui vai...
Levou a flauta de Hagrid aos lábios e soprou. Não era realmente uma música, mas as primeiras notas os olhos da fera começaram a se fechar. Harry nem chegou a tomar fôlego.
Lentamente, os rosnados do cachorro cessaram, ele balançou nas patas e caiu de joelhos, depois se estirou no chão, completamente adormecido.
— Continue tocando — Rony preveniu a Harry enquanto saiam de baixo da capa e deslizavam para o alçapão. Sentiram o bafo quente e fedorento do cachorro ao se aproximarem de suas cabeçorras.
— Acho que vamos conseguir abrir a porta — disse Rony, espiando por cima do dorso do cachorro. — Quer entrar primeiro, Hermione?
— Não, eu não!
— Tudo bem — Rony cerrou os dentes e passou com cautela pelas pernas do cachorro. E abaixando-se puxou o anel do alçapão, que se abriu.
— O que é que você está vendo? — perguntou Hermione, ansiosa.
— Nada... Só escuridão... Não tem como descer, teremos que nos jogar.
Harry, que continuava a tocar a flauta, fez sinal para atrair a atenção de Rony e apontou para si mesmo.
— Você quer ir primeiro? Tem certeza? — disse Rony, — Não sei qual é a profundidade dessa coisa. Dá a flauta para Hermione manter Fofo adormecido.
Harry passou a flauta a ela. Naqueles minutinhos de silêncio, o cachorro rosnou e se mexeu, mas no instante que Hermione começou a tocar, ele tornou a cair em sono profundo.
Harry passou por cima de Fofo e espiou pelo alçapão. Não viu nem sinal de fundo...
Baixou o corpo pelo buraco até ficar pendurado pelas pontas dos dedos, Então olhou para Rony no alto e disse:
— Se alguma coisa acontecer comigo, não me siga. Vá direto ao corujal e mande Edwiges ao Dumbledore, certo?
— Certo.
— Vejo você daqui a pouco, espero...
E Harry soltou os dedos. Um vento frio e úmido passou rápido por ele, que foi caindo, caindo, caindo e...
Pam.
Com um baque engraçado e surdo ele bateu em alguma coisa macia. Sentou-se e apalpou à volta, os olhos desacostumados à escuridão. Parecia que estava sentado em uma espécie de planta.
— Tudo bem! — gritou para a claridade do tamanho de um selo lá no alto, que era o alçapão aberto. — A queda é macia pode pular!
Rony seguiu-o imediatamente. Caiu esparramado ao lado de Harry.
— O que é isso? — foram suas primeiras palavras.
— Sei lá, uma espécie de planta. Suponho que esteja aqui para amortecer a queda. Venha, Hermione!
A música distante parou. Ouviu-se um latido alto do cachorro, mas Hermione já pulara. Ela caiu do outro lado de Harry.
— Devemos estar a quilômetros abaixo da escola — comentou.
— É realmente uma sorte que esta planta esteja aqui — disse Rony.
— Sorte! — gritou Hermione. — Olhem só para vocês dois.
Ela se levantou de um salto e lutou para chegar à parede úmida. Teve de lutar porque, no momento em que chegou ao fundo, a planta começou a se enroscar como as gavinhas de uma trepadeira em volta dos seus tornozelos. Quanto a Harry e Rony, suas pernas já tinham sido bem atadas por longos galhos sem que eles notassem.
Hermione conseguira se desvencilhar antes que a planta a agarrasse para valer. Agora observava horrorizada os dois meninos lutarem para se livrar da planta, mas quanto mais se esforçavam, mais depressa e mais firme a planta se enrolava neles.
— Parem de se mexer! — mandou Hermione. – Sei o que é isso. É visgo do diabo!
— Ah fico tão contente que você saiba como se chama, é uma grande ajuda — resmungou Rony, tentando impedir que a planta se enroscasse em seu pescoço.
— Cala a boca, estou tentando me lembrar como matá-la! — disse Hermione.
— Bom, anda logo, não consigo respirar! — ofegava Harry, lutando com a planta que se enroscava em torno de seu peito.
— Visgo do diabo, visgo do diabo... O que foi que a Professora Sprout disse? Gosta da umidade e da escuridão...
— Então acenda um fogo! — engasgou-se Harry.
— É... É claro... Mas não tem madeira... — lamentou-se Hermione, torcendo as mãos.
— VOCÊ ENLOUQUECEU? — berrou Rony, — VOCÊ É UMA BRUXA OU NÃO É?
— Ah, certo! — disse Hermione e, puxando a varinha, sacudiu-a, murmurou alguma coisa e despachou um jato daquelas chamas azuis que usara em Snape contra as plantas. Em questão de segundos, os dois meninos sentiram a planta afrouxar e se encolher para longe da luz e do calor. Torcendo-se, ela se desenrolou dos corpos dos meninos, que puderam se levantar.
— Que sorte que você presta atenção às aulas de Herbologia, Hermione — disse Harry, quando se juntou a ela ao pé da parede, enxugando o suor do rosto.
— É — comentou Rony —, e que sorte que Harry não perde a cabeça numa crise, "não tem madeira", francamente.
— Por ali — disse Harry, apontando um corredor de pedra que era o único caminho que havia.
Só o que podiam ouvir além de seus passos eram os pingos abafados da água que escorria pela parede. O corredor começou a descer e Harry se lembrou de Gringotes. Com um sobressalto, lembrou-se dos dragões que, segundo diziam, guardavam os cofres-fortes no banco dos bruxos. Se topassem com um dragão, um dragão adulto... Norberto já fora bastante ruim.
— Você está ouvindo alguma coisa? Rony cochichou.
Harry apurou os ouvidos. Um farfalhar acompanhado de ruído metálico parecia vir de um ponto mais adiante.
— Você acha que é um fantasma?
— Não sei... Para mim parecem asas.
— Há luz à frente, estou vendo alguma coisa se mexendo.
Chegaram ao fim do corredor e depararam com uma câmara muito iluminada, o teto abobadado no alto. Era cheia de passarinhos, brilhantes como jóias, que esvoaçavam e colidiam pelo aposento. Do lado oposto da câmara havia uma pesada porta de madeira.
— Você acha que nos atacarão se atravessarmos a câmara? — perguntou Rony.
— Provavelmente — respondeu Harry, — Eles não parecem muito bravos, mas suponho que se todos mergulhassem ao mesmo tempo... Bom, não tem remédio... Vou correr.
Tomou fôlego, cobriu o rosto com os braços e atravessou a câmara correndo. Esperava sentir bicos afiados e garras atacando-o a qualquer minuto, mas nada aconteceu. Alcançou a porta incólume. Baixou a maçaneta, mas a porta estava trancada.
Os outros dois o seguiram. Fizeram força para abrir a porta, mas ela nem sequer se moveu, nem mesmo quando Hermione experimentou o seu feitiço
 Alorromora.
— E agora? — perguntou Rony.
— Esses pássaros... Não podem estar aqui só para enfeitar — disse Hermione.
Eles observaram os pássaros voando no alto, brilhando.
— Brilhando?
— Eles não são pássaros! — Harry exclamou de repente. — São chaves! Chaves aladas, olhe com atenção. Então isso deve querer dizer... — e olhou à volta da câmara enquanto os outros dois apertavam os olhos para enxergar o bando de chaves no alto — olhe! Vassouras! Temos que apanhar a chave da porta.
Mas eram centenas!
Rony examinou a fechadura.
— Estamos procurando uma chave bem grande e antiga, provavelmente de prata, como a maçaneta.
Cada um apanhou uma vassoura e deu impulso no ar, mirando o meio da nuvem de chaves. Tentaram agarrá-las, mas as chaves encantadas fugiam e mergulhavam tão rápido que era quase impossível apanhar uma.
Mas não era à toa que Harry era o mais jovem apanhador do século. Tinha um jeito para localizar coisas que os outros não tinham. Depois de um minuto trançando pelo redemoinho de pernas, ele notou uma chave grande de prata que tinha uma asa dobrada, como se já tivesse sido apanhada e enfiada de qualquer jeito na fechadura.
— Aquela ali! — gritou para os outros — Aquela grandona... Ali... Não... Lá... Com as asas azul-forte. As penas estão todas amassadas de um lado.
Rony precipitou-se na direção que Harry apontava, bateu no teto e quase caiu da vassoura.
— Temos que cercá-la! — gritou Harry, sem tirar os olhos da chave com a asa danificada. — Rony, você cerca por cima. Hermione, fica embaixo e não deixa ela descer, e eu vou tentar pegar. Certo, AGORA!
Rony mergulhou, Hermione disparou para o alto, a chave desviou-se dos dois e Harry partiu atrás dela, a chave correu para a parede, Harry se curvou para frente e, com uma pancada feia, prendeu-a contra a pedra com a mão. Os vivas de Rony e Hermione ecoaram pela câmara.
Eles pousaram em seguida e Harry correu para a porta, a chave a se debater em sua mão. Enfiou-a na fechadura e virou-a, deu certo. No instante em que ouviram o barulho da lingüeta se abrindo, a chave tornou a alçar vôo, parecendo agora muito maltratada depois de ter sido apanhada duas vezes.
— Estão prontos? — Harry perguntou aos dois, a mão na maçaneta da porta. Eles fizeram um sinal afirmativo com a cabeça.
Ele escancarou a porta.
A câmara seguinte era tão escura que não dava para ver absolutamente nada. Mas, ao entrarem nela, a luz inesperadamente inundou o aposento, revelando uma cena surpreendente.
Estavam parados na borda de um enorme tabuleiro de xadrez atrás das peças pretas, que eram todas mais altas do que eles e talhadas em um material que parecia pedra. De frente para eles, do outro lado da câmara, estavam dispostas as peças brancas. Harry, Rony e Hermione sentiram um leve arrepio, as peças brancas e altas não tinham feições.
— Agora o que vamos fazer? — sussurrou Harry.
— É óbvio, não é? — falou Rony. — Temos que jogar para chegar ao outro lado da câmara.
Por trás das peças brancas eles podiam ver outra porta.
— Como? — perguntou Hermione, nervosa.
— Acho que vamos ter que virar peças.
Ele se dirigiu a um cavalo preto e esticou a mão para tocar seu cavaleiro. No mesmo instante, a pedra ganhou vida. O cavalo pateou o tabuleiro e seu cavaleiro virou a cabeça protegida por um elmo pata olhar Rony.
— Temos que nos unir a vocês para chegar ao outro lado? — O cavaleiro preto confirmou com a cabeça. Rony virou-se para os outros dois.
— Isto exige reflexão disse. — Suponho que a gente tenha que tomar o lugar de três peças pretas...
Harry e Hermione ficaram quietos, observando Rony refletir. Finalmente ele disse:
— Agora não vão se ofender, mas nenhum dos dois é tão bom assim em xadrez...
— Não estamos ofendidos — interrompeu Harry depressa — Diga o que vamos fazer.
— Bom, Harry, você toma o lugar daquele Bispo e, Hermione, você fica ao lado dele substituindo a Torre.
— E você?
— Vou ser o cavaleiro.
As peças pareciam estar escutando, porque ao ouvir isso um cavaleiro, um bispo e uma torre deram as costas às peças brancas e saíram do tabuleiro, deixando três casas vazias, que Harry, Rony e Hermione ocuparam.
— No xadrez as brancas sempre jogam primeiro — explicou Rony, observando o tabuleiro. — É... Olhem...
Um Peão branco avançara duas casas.
Rony começou a comandar as peças pretas. Elas se mexiam em silêncio indo aonde eram mandadas. Os joelhos de Harry tremiam. E se perdessem?
— Harry, ande quatro casas para a direita em diagonal.
O primeiro choque de verdade que levaram foi quando o outro Cavalo foi comido. A Rainha branca esmagou-o no chão e arrastou-o para fora do tabuleiro, onde ele ficou deitado imóvel, de borco no chão.
— Eu tinha que deixar isso acontecer — disse Rony, parecendo abalado. — Assim você fica livre para comer aquele Bispo, Hermione, ande.
Todas as vezes que eles perdiam uma peça, as peças brancas não mostravam piedade. Dali a pouco havia uma coleção de peças pretas inertes encostadas à parede. Duas vezes, Rony reparou, em cima do lance, que Harry e Hermione estavam em perigo. Ele próprio disparou pelo tabuleiro comendo quase tantas peças brancas quanto as pretas que haviam perdido.
— Estamos quase chegando — murmurou de repente. — Me deixem pensar... Deixe-me pensar...
A Rainha branca virou o rosto vazio para ele.
— E... — continuou ele baixinho —, é o jeito... Preciso me sacrificar.
— Não! — Harry e Hermione gritaram.
— Isto é xadrez! — retorquiu Rony. — A pessoa tem que fazer alguns sacrifícios! Dou um passo à frente e ela me come, isso deixa você livre para dar o xeque-mate no Rei, Harry!
— Mas...
— Você quer deter Snape ou não?
— Rony...
— Olhe, se você não se apressar, ele já terá apanhado a Pedra!
Não havia opção.
— Pronto? — perguntou Rony, o rosto pálido, mas decidido. — Então vamos, agora, não se demore depois de ganhar a partida.
Ele avançou e a rainha branca o atacou. Golpeou Rony com força na cabeça com o braço de pedra e ele caiu com estrondo no chão. Hermione gritou, mas continuou parada em sua casa. A rainha branca arrastou Rony para um lado. Ele parecia ter sido nocauteado.
Trêmulo, Harry se deslocou três casas para a esquerda.
O Rei branco tirou a coroa e jogou-a aos pés dele. Os meninos tinham ganhado o jogo. As peças se afastaram para os lados e se curvaram, deixando o caminho livre para a porta em frente. Com um último olhar desesperado para Rony, Harry e Hermione se precipitaram para a porta e para o corredor seguinte.
— E se ele...?
— Ele vai ficar bem — disse Harry, tentando convencer a si mesmo. — Que é que você acha que vai acontecer agora?
— Tivemos o feitiço da Sprout, o Visgo do Diabo. Flitwick deve ter encantado as chaves. McGonagall transfigurou as peças de xadrez para lhes dar vida. Faltam o feitiço de Quirrell e o de Snape.
Tinham chegado à outra porta.
— Tudo bem? — cochichou Harry.
— Vamos.
Harry empurrou a porta para abri-la.
Um fedor horrível entrou por suas narinas, fazendo os dois puxarem as vestes para cobrir o nariz. Com os olhos lacrimejando, eles viram, deitado no chão diante deles, um trasgo ainda maior do que o que tinham enfrentado, desacordado e com um calombo ensangüentado na cabeça.
— Que bom que não precisamos lutar contra este aí — sussurrou Harry, enquanto, cautelosamente, saltavam por cima da perna maciça do trasgo. — Vamos, não estou conseguindo respirar.
Harry abriu a porta seguinte, os dois mal se atreviam a olhar o que vinha a seguir, mas não havia nada muito assustador ali, apenas uma mesa e sobre ela sete garrafas de formatos diferentes.
— É o de Snape — disse Harry. — O que temos de fazer?
Ao cruzarem a soleira da porta, imediatamente irromperam chamas atrás deles. E não eram chamas comuns tampouco, eram roxas. Ao mesmo tempo, surgiam chamas pretas na porta adiante.
Estavam encurralados.
— Olhe! — Hermione apanhou um rolo de papel que havia ao lado das garrafas. Harry espiou por cima do seu ombro para ler o papel:

O perigo o aguarda à frente, a segurança ficou atrás,
Duas de nós o ajudaremos no que quer encontrar,
Uma dos sete o deixará prosseguir,
A outra levará de volta quem a beber,
Duas de nós conterão vinho de urtigas,
Três de nós aguardam em fria para o matar,
Escolha, ou, ficará aqui para sempre,
E para ajudá-lo, lhe damos quatro pistas:

Primeira, por mais dissimulado que esteja o veneno,
Você sempre encontrará um à esquerda do vinho de urtigas,
Segunda, são diferentes as garrafas de cada lado,
Aliás, se você quiser avançar nenhuma é sua amiga,
Terceira, é visível que temos tamanhos diferentes,
Nem a anã nem a gigante leva a morte no bojo,
Quarta, a segunda à esquerda e a segunda a direita
São gêmeas ao paladar, embora diferentes a vista.


Hermione deixou escapar um grande suspiro e Harry, perplexo, viu que ela sorria, a última coisa que ele tinha vontade de fazer.
— Genial — disse — Isto não é mágica, é lógica, uma charada, a maioria dos grandes bruxos não tem um pingo de lógica, ficariam presos aqui para sempre.
— E nós também, não?
— Claro que não. Tudo o que precisamos está aqui neste papel. Sete garrafas: três contêm veneno, duas, vinho, uma nos ajudará a passar a salvo pelas chamas negras, e uma nos levará de volta através das chamas roxas.
— Mas como vamos saber qual delas beber?
— Me dê um minuto.
Hermione leu o papel diversas vezes. Depois passou em revista a fila de garrafas, para cima e para baixo, resmungando de si para si e apontando para as garrafas. Finalmente, bateu palmas.
— Já sei. A garrafa menor nos fará atravessar as chamas negras, rumo à pedra.
Harry mirou a garrafinha.
— Ali só tem o suficiente para um de nós. Não chega a ter um gole.
Eles se entreolharam...
— Qual é a que a fará voltar pelas chamas roxas?
Hermione apontou para uma garrafa arredondada na ponta direita da fila.
— Você bebe essa — disse Harry — Agora, escute, volte e recolha o Rony, apanhe vassouras na câmara das chaves aladas, elas levarão vocês para fora do alçapão e por cima de Fofo. Vão direto ao corujal e mandem Edwiges a Dumbledore, precisamos dele. Talvez eu possa segurar Snape por algum tempo, mas não sou páreo para ele.
— Mas Harry, e se Você-Sabe-Quem estiver com ele?
— Bom... Tive sorte uma vez, não tive? — falou Harry indicando a cicatriz. — Talvez tenha sorte outra vez.
A boca de Hermione estremeceu e ela correu de repente para Harry e o abraçou.
— Hermione.
— Harry você é um grande bruxo, sabe?
— Não sou tão bom quanto você — disse Harry, muito sem graça, quando ela o largou.
— Eu! livros! E inteligência! Há coisas mais importantes, amizade e bravura e, ah, Harry tenha cuidado!
— Você bebe primeiro — disse Harry, — Você tem certeza de qual é qual, não tem?
— Positivo.
Ela tomou um demorado gole da garrafa arredondada na ponta e estremeceu.
— Não é veneno? — perguntou Harry ansioso.
— Não... Mas parece gelo.
— Vai logo antes que o efeito passe.
— Boa sorte... Cuide-se...
— VAI!
Hermione virou-se e passou direto pelas chamas roxas.
Harry tomou fôlego e apanhou a garrafa menor de todas.
Virou-se para encarar as chamas negras.
— Aqui vou eu — disse e esvaziou a garrafinha de um gole só.
Era na verdade como se o gelo estivesse invadindo seu corpo. Ele deixou a garrafa na mesa e avançou, enchendo-se de coragem, viu as chamas negras lamberem seu corpo, mas não as sentiu, por um instante não viu nada a não ser as chamas negras, então viu que estava do outro lado, na última câmara.
Havia alguém lá, mas não era Snape. Tampouco Voldemort.

Harry Potter e a pedra filosofal

Capítulo 15 - A floresta proibida

As coisas não poderiam estar piores.
Filch levou-os à sala da Professora Minerva no primeiro andar, onde eles ficaram sentados esperando, sem trocar uma palavra entre si. Hermione tremia. Desculpas, álibis e justificativas fantásticas substituíam-se umas as outras na cabeça de Harry, cada qual mais capenga do que a anterior. Ele não conseguia ver como iam se livrar desta encrenca. Estavam encurralados. Como podiam ter sido burros a ponto de se esquecerem da capa? Não havia nenhuma razão no mundo para a Professora Minerva aceitar que estivessem fora da cama, esgueirando-se pela escola a altas horas da noite, e muito menos que estivessem na alta torre de astronomia, que era proibida aos alunos a não ser durante as aulas.
Some-se a isso Norberto e a capa da invisibilidade e seria melhor começarem a fazer as malas.
Harry achou que as coisas não poderiam ficar piores. Estava enganado. Quando a Professora Minerva apareceu, vinha trazendo Neville.
— Harry! — exclamou ele, no instante em que viu os outros dois. — Eu estava tentando encontrar vocês para avisar que ouvi Malfoy dizer que ia pegar vocês, disse que vocês tinham um drag...
Harry sacudiu com força a cabeça para fazer Neville calar a boca, mas a Professora Minerva viu. Parecia mais provável que ela cuspisse fogo pelas narinas do que Norberto, ali a olhar os três de cima para baixo.
— Eu jamais teria acreditado que vocês fossem capazes disso. O Sr. Filch diz que vocês estavam no alto da torre de astronomia. É uma hora da madrugada. Expliquem-se...
Era a primeira vez que Hermione deixava de responder à uma pergunta de uma professora. Olhava para os sapatos, imóvel como uma estátua.
— Acho que tenho uma boa idéia do que anda acontecendo — disse a Professora Minerva. — Não é preciso ser gênio para somar dois mais dois. Vocês contaram a Draco Malfoy uma história da carochinha sobre um dragão, tentando tirá-lo da cama e metê-lo em apuros. Eu já o apanhei. Suponho que achem engraçado que o Neville tenha ouvido a história e acreditado nela também.
Harry surpreendeu o olhar de Neville e tentou lhe dizer, sem falar, que aquilo não era verdade, porque Neville tinha uma expressão de espanto e mágoa. Pobre Neville trapalhão. Harry sabia o que deveria ter-lhe custado tentar encontrá-los no escuro para avisar.
— Estou desapontada — disse a Professora Minerva. — Quatro alunos fora da cama em uma noite! Nunca ouvi falar numa coisa dessas antes! Você, Hermione Granger, achei que tinha mais juízo. Quanto a você, Harry Potter, achei que Grifinória significava mais para você do que parece. Os três vão pegar uma detenção, sim e você também, Neville Longbottom, não há nada que lhe dê o direito de andar pela escola à noite, principalmente nos dias que correm, é muito perigoso, e vou descontar cinqüenta pontos da Grifinória.
— Cinqüenta?— Harry ofegou. Perderiam a dianteira, a dianteira que ele conquistara na última partida de Quadribol.
— Cinqüenta pontos de cada um — acrescentou a Professora Minerva, respirando com esforço pelo nariz longo e pontudo.
— Professora... Por favor... A senhora não pode...
— Não venha me dizer o que eu posso e o que eu não posso, Harry Potter. Agora voltem para a cama, todos vocês. Nunca senti tanta vergonha de alunos da Grifinória antes.
Cento e cinqüenta pontos perdidos. Isto deixava a Grifinória em último lugar. Em uma noite, tinham estragado as chances de Grifinória conquistar a taça das casas. Harry teve a sensação de que o fundo do seu estômago se soltara. Como iriam poder compensar a perda?
Harry não dormiu a noite inteira. Ouviu Neville soluçar com a cara no travesseiro durante o que lhe pareceram horas. Harry não conseguia pensar em nenhuma palavra para consolá-lo. Sabia que Neville, como ele mesmo, estava com medo do amanhecer.
O que aconteceria quando o resto de Grifinória descobrisse o que tinham feito?
A princípio, os alunos de Grifinória que passavam pelas gigantescas ampulhetas que marcavam o placar das casas, no dia seguinte, acharam que tinha havido um engano. Como podiam de repente ter cento e cinqüenta pontos menos do que no dia anterior?
E então a história começou a se espalhar. Harry Potter, o famoso Harry Potter, seu herói dos jogos de Quadribol, fora o responsável pela perda de todos aqueles pontos, ele e mais uns dois panacas do primeiro ano.
Da posição de aluno mais popular e admirado na escola, Harry passou a de mais odiado. Até os alunos da Corvinal e Lufa-Lufa se voltaram contra ele, porque todos desejavam há muito tempo ver a Sonserina perder a Taça das Casas. Para todo lado que Harry ia, as pessoas o apontavam e não se davam ao trabalho de baixar as vozes para xingá-lo. Os de Sonserina, por outro lado, batiam palmas quando ele passava, assobiavam e davam vivas.
"Obrigado, Potter, ficamos lhe devendo essa!”
Somente Rony continuou do seu lado.
— Eles vão esquecer dentro de umas semanas. Fred e Jorge já perderam montes de pontos desde que chegaram aqui e as pessoas continuam a gostar deles.
— Eles nunca perderam cento e cinqüenta pontos de uma tacada, ou perderam? — retrucou Harry, infeliz.
— Bom... Não — admitiu Rony.
Era um pouco tarde para consertar o estrago, mas Harry jurou nunca mais se meter em coisas que não eram de sua conta. Bastava de espiar e espionar. Sentia tanta vergonha que foi procurar Olívio para oferecer sua demissão do time de Quadribol.
— Se demitir? — trovejou Olívio. — Que bem faria isso? Como vamos poder recuperar os pontos se não conseguirmos vencer no Quadribol?
Mas até mesmo o Quadribol perdera a graça. O resto do time não queria falar com Harry durante os treinos e quando precisavam se referir a ele chamavam-no de
 "o apanhador".
Hermione e Neville estavam sofrendo também. Não estavam apanhando tanto quanto Harry, porque não eram tão conhecidos, mas ninguém falava com eles, tampouco. Hermione parara de chamar atenção nas aulas, mantinha a cabeça baixa e trabalhava em silêncio.
Harry quase se alegrava que os exames não estivessem muito distantes. Todas as revisões que precisava fazer o distraiam de sua infelicidade. Ele, Rony e Hermione ficavam sozinhos, trabalhavam até tarde da noite, tentando lembrar os ingredientes das complicadas poções, aprender os feitiços e encantamentos de cor, decorar as datas das descobertas mágicas e das revoltas dos duendes...
Então, uma semana antes de começarem os exames, a nova resolução de Harry de não se meter em nada que não fosse de sua conta, foi submetida a um teste inesperado. Ao voltar da biblioteca, sozinho certa tarde, ouviu alguém choramingando numa sala de aulas mais à frente. Ao se aproximar, ouviu a voz de Quirrell.
— Não... Não... Outra vez não, por favor...
Parecia que alguém o estava ameaçando. Harry se aproximou um pouco mais.
— Está bem... Está bem — ouviu Quirrell soluçar.
No segundo seguinte, Quirrell saiu correndo da sala de aulas ajeitando o turbante. Estava pálido e parecia prestes a chorar. E desapareceu de vista, Harry achou que Quirrell nem sequer reparara nele. Esperou até que o ruído dos passos de Quirrell desaparecesse e, então, espiou para dentro da sala. Estava vazia, mas havia uma porta entreaberta na outra extremidade. Harry já ia em direção à porta, quando se lembrou de que prometera a si mesmo não se meter em nada.
Assim mesmo, teria apostado doze pedras Filosofais que Snape acabara de deixar a sala, e pelo que Harry acabara de ouvir ganhara uma nova agilidade nos passos. Quirrell parecia ter finalmente cedido.
Harry voltou à biblioteca, onde Hermione estava tomando os pontos de astronomia de Rony. Contou-lhes o que ouvira.
— Snape então conseguiu — exclamou Rony, — Se Quirrell contou a ele como quebrar o feitiço antimagia negra...
— Mas ainda temos Fofo — lembrou Hermione.
— Talvez Snape tenha descoberto como passar pelo cachorro sem perguntar ao Rúbeo — disse Rony, correndo os olhos pelos milhares de livros que os rodeavam — Aposto como tem um livro por aqui que ensina como se passar por um cachorrão de três cabeças. Então, o que vamos fazer Harry?
O brilho de aventura voltava a iluminar os olhos de Rony, mas Hermione respondeu, antes que Harry pudesse fazê-lo.
— Vamos procurar Dumbledore. Isto é o que deveríamos ter feito há séculos. Se tentarmos alguma coisa por conta própria, com certeza vamos ser expulsos.
— Mas não temos provas — disse Harry. — Quirrell está apavorado demais para nos apoiar. Snape só precisa dizer que não sabe como foi que o trasgo entrou no Dia das Bruxas e que nem chegou perto do terceiro andar. Em quem vocês acham que eles vão acreditar, nele ou em nós? Não é bem segredo que nós o detestamos, Dumbledore vai pensar que inventamos isso para ele ser despedido. Filch não nos ajudaria nem que a vida dele dependesse disso, é muito amigo de Snape, e quanto mais alunos forem expulsos, tanto melhor, é o que ele pensa. E não se esqueçam nós nem devíamos saber da Pedra nem de Fofo. O que vai exigir muita explicação.
Hermione pareceu convencida, mas não Rony.
— Se déssemos só uma espiadinha...
— Não — respondeu Harry decidido —, já demos muitas espiadinhas.
E, dizendo isso, puxou um mapa de júpiter para perto e começou a aprender os nomes das luas.
Na manhã seguinte, Harry Hermione e Neville receberam bilhetes à mesa do café da manhã. Diziam a mesma coisa:

“Sua detenção começará às vinte e três horas.
Aguardem o Sr. Filch no saguão de entrada.
Professora Minerva”.


No furor provocado pela perda de pontos, Harry esquecera que ainda tinham detenções a cumprir. Esperou que Hermione reclamasse que aquilo representava perder uma noite inteira de revisões, mas não disse uma palavra. Achava, como Harry, que teriam o que tinham merecido.
Às onze horas da noite eles se despediram de Rony na sala comunal e desceram com Neville para o saguão de entrada. Filch já se encontrava lá e também Malfoy. Harry esquecera que Malfoy pegara uma detenção também.
— Sigam-me — disse Filch, acendendo uma lanterna e levando-os para fora.
— Aposto que vão pensar duas vezes antes de desobedecer novamente ao regulamento da escola, não é mesmo? — disse caçoando — Ah, sim, trabalho pesado e dor são os melhores mestres, se querem saber. É uma pena que tenham suspendido os castigos antigos, pendurar o aluno no teto pelos pulsos durante alguns dias, ainda tenho as correntes na minha sala, conservo-as azeitadas para o caso de precisarem. Muito bem, lá vamos nós, e nem pensem em fugir agora, será pior para vocês se fizerem isso.
Eles caminharam pela propriedade às escuras. Neville não parava de fungar. Harry ficou imaginando qual seria o castigo.
Devia ser alguma coisa realmente horrível, ou Filch não pareceria tão contente.
A lua brilhava, mas as nuvens que passavam por ela lançava-os na escuridão. À frente, Harry via as janelas iluminadas da cabana de Hagrid. Então, ouviram um grito distante.
— É você, Filch? Ande logo, quero começar de uma vez.
O ânimo de Harry melhorou, se eles iam trabalhar com Hagrid então não seria tão ruim. Seu alivio deve ter transparecido no rosto, porque Filch falou:
— Acho que você está pensando que vai se divertir com aquele panaca? Pois pode pensar outra vez, menino. É para a floresta que você vai e estarei muito enganado se voltar inteiro.
Ao ouvir isso, Neville deixou escapar um gemido e Malfoy ficou paralisado.
— A floresta? — repetiu e não pareceu tão tranqüilo como de costume. — Não podemos entrar lá à noite... Tem todo tipo de coisa lá... Lobisomens, ouvi falar.
Neville agarrou a manga das vestes de Harry e pareceu se engasgar.
— Isto é o que pensa, não é? — disse Filch, a voz esganiçando-se de satisfação. — Devia ter pensado nos lobisomens antes de se meterem encrencas, não acha?
Hagrid saiu do escuro caminhando em direção a eles, com Canino nos calcanhares. Carregava um grande arco e uma aljava com flechas pendurada ao ombro.
— Até que enfim. Já estou esperando há meia hora. Tudo bem, Harry, Hermione?
— Eu não seria tão simpático com eles, Hagrid — disse Filch com frieza — afinal eles estão aqui para serem castigados.
— E por isso que você está atrasado, não é? — disse Hagrid, amarrando a cara. — Andou passando carão neles, não é? Isso não é sua função. Você fez a sua parte, eu pego daqui para frente.
— Volto ao amanhecer para recolher o que sobrar deles — disse Filch maldoso, deu meia-volta e retornou ao castelo, balançando a lanterna na escuridão.
Malfoy virou-se então para Hagrid.
— Não vou entrar nessa floresta — disse, e Harry ficou contente de ouvir a nota de pânico em sua voz.
— Vai, sim, se quiser continuar em Hogwarts — disse Hagrid com ferocidade. — Você agiu mal e agora tem de pagar pelo que fez...
— Mas isso é coisa para empregados e não para estudantes. Achei que íamos fazer uma cópia ou outra coisa do gênero, se meu pai souber que eu estou fazendo isso, ele...
—... Lhe dirá que em Hogwarts é assim — rosnou Hagrid. — Fazer cópia! Para que serve? Você vai fazer uma coisa útil ou vai sair da escola. E se pensa que seu pai vai preferir que você seja expulso, então volte para o castelo e faça suas malas. Vamos!
Malfoy não se mexeu. Encarou Hagrid furioso e em seguida baixou os olhos.
— Muito bem, então — disse Hagrid — agora prestem atenção, porque é perigoso o que vamos fazer hoje à noite e não quero ninguém se arriscando. Venham até aqui comigo.
Ele os conduziu à orla da floresta. Erguendo a lanterna bem alto, apontou para uma trilha serpeante de terra batida que desaparecia por entre árvores escuras. Uma brisa leve levantou os cabelos dos meninos, quando eles se viraram para a floresta.
— Olhem ali, estão vendo aquela coisa brilhando no chão? Prateada? Aquilo é sangue de unicórnio. Tem um unicórnio ali que foi ferido gravemente por alguma coisa. É a segunda vez esta semana. Encontrei um morto na quarta-feira passada. Vamos tentar encontrar o pobrezinho. Talvez a gente precise pôr fim ao sofrimento dele.
— E se a coisa que feriu o unicórnio nos encontrar primeiro? — perguntou Malfoy, incapaz de conter o medo na voz.
— Não há nenhuma criatura viva na floresta que vá machucá-lo se você estiver comigo e com o Canino. E siga a trilha. Muito bem, agora, vamos nos separar em dois grupos e seguir a trilha em direções opostas. Tem sangue por toda parte, ele deve estar cambaleando pelo menos desde a noite passada.
— Eu quero Canino — disse Malfoy depressa, olhando para as presas de Canino.
— Muito bem, mas vou-lhe avisando, ele é covarde. Então eu, Harry e Hermione vamos por aqui e Draco, Neville e Canino por ali. Agora, se algum de nós achar o unicórnio, disparamos centelhas verdes para o alto, 0K? Peguem as varinhas e comecem a praticar agora, assim. E se alguém se enrolar, dispare centelhas vermelhas, e vamos todos procurá-lo, então, cuidado. Vamos.
A floresta estava escura e silenciosa. Entrando por ela, chegaram a uma bifurcação, e Harry, Hermione e Hagrid tomaram o caminho da esquerda enquanto Malfoy, Neville e Canino tomaram o da direita.
Caminharam em silêncio, com os olhos no chão. Aqui e ali um raio de luar penetrava por entre os galhos e iluminava uma mancha de sangue prateado nas folhas caídas.
Harry viu que Hagrid parecia muito preocupado.
— É possível um lobisomem estar matando os unicórnios? – Perguntou.
— Não com essa rapidez, não é fácil matar um unicórnio, eles são criaturas mágicas poderosas. Nunca soube de nenhum ter sido ferido antes.
Passaram por um toco de árvore coberto de musgo. Harry ouviu água correndo, devia haver um riacho por perto. Ainda viam manchas de sangue de unicórnio aqui e ali pela trilha serpeante.
— Você está bem, Hermione? — sussurrou Hagrid — Não se preocupe, ele não pode ter ido longe se está tão ferido e então poderemos... PARA TRÁS DAQUELA ÁRVORE!
Hagrid agarrou Harry e Hermione e guindou-os para fora da trilha e para trás de um enorme carvalho. Puxou uma flecha e encaixou-a no arco, e ergueu-o, pronto para atirar. Os três apuraram os ouvidos. Alguma coisa deslizava pelas folhas mortas ali perto, parecia uma capa arrastando no chão. Hagrid apertava os olhos para enxergar a trilha escura à frente, mas, passados alguns segundos, o ruído desapareceu.
— Eu sabia — murmurou ele. — Tem alguma coisa aqui que está fora de lugar.
— Um lobisomem? — sugeriu Harry.
— Isso não era um lobisomem e não era um unicórnio, tão pouco — disse Hagrid sério. — Muito bem, me sigam, mas tenham cuidado, agora.
Continuaram a caminhar mais devagar, os ouvidos à escuta do menor ruído. De repente, alguma coisa na clareira adiante, alguma coisa sem dúvida se mexia.
— Quem está ai? — chamou Hagrid. — Apareça. Estou armado! E na clareira apareceu um vulto — era um homem, ou um cavalo? Até a cintura, um homem, com cabelos e barba vermelhos, mas da cintura para baixo era um luzidio cavalo castanho com uma cauda longa e avermelhada. Os queixos de Harry e Hermione caíram.
— Ah! É você, Ronan — exclamou Hagrid aliviado. — Como vai?
Ele se adiantou e apertou a mão do
 centauro.
— Boa noite para você, Hagrid — disse Ronan. Tinha uma voz grave e triste. — Você ia atirar em mim?
— Cautela nunca é demais, Ronan — disse Hagrid, dando uma palmadinha no arco.— Tem alguma coisa à solta nesta floresta. Ah, sim, estes são Harry Potter e Hermione Granger. Alunos lá da escola. E este é Ronan. É um
 centauro.
— Já percebi — disse Hermione com a voz fraca.
— Boa noite — cumprimentou Ronan — São alunos, é? E aprendem muita coisa na escola?
— Hum.
— Um pouquinho — respondeu Hermione tímida.
— Um pouquinho. Bom, já é alguma coisa — suspirou Ronan.
Depois, jogou a cabeça para trás e contemplou o céu.
— Marte está brilhante hoje.
— É — disse Hagrid, mirando o céu também. — Olhe, foi bom termos nos encontrado, Ronan, porque tem um unicórnio ferido. Você viu alguma coisa?
Ronan não respondeu imediatamente. Continuou a olhar para o alto sem piscar e então suspirou outra vez.
— Os inocentes são sempre as primeiras vitimas. Foi assim no passado, é assim agora.
— É, mas você viu alguma coisa, Ronan? Alguma coisa anormal?
— Marte está brilhante hoje — repetiu Ronan enquanto Hagrid o observava impaciente. — Um brilho anormal.
— Sim, mas estou me referindo a alguma coisa mais perto da terra. Você não notou nada estranho?
Mais uma vez, Ronan levou algum tempo para responder. Por fim disse:
— A floresta esconde muitos segredos.
Um movimento nas árvores atrás de Ronan fez Hagrid erguer o arco outra vez, mas era apenas um segundo centauro, de cabelos e corpo negros e de aspecto mais selvagem do que Ronan.
— Olá, Agouro — cumprimentou Hagrid. — Tudo bem?
— Boa noite, Hagrid, você vai bem, espero.
— Bastante bem. Olhe, eu estava mesmo perguntando a Ronan, você viu alguma coisa estranha por aqui ultimamente? É que um unicórnio foi ferido. Você sabe alguma coisa?
Agouro foi se postar ao lado de Ronan. Olhou para o céu.
— Marte está brilhante hoje — disse simplesmente.
— Já sabemos — respondeu Hagrid agastado. — Bom, se um de vocês vir alguma coisa, me avise, por favor. Vamos indo, então.
Harry e Hermione saíram com ele da clareira, espiando Ronan e Agouro por cima dos ombros até as árvores tamparem sua visão.
— Nunca — disse Hagrid irritado — tentem obter uma resposta direta de um centauro. Vivem contemplando as estrelas. Não estão interessados em nada que esteja mais perto do que a lua.
— E têm muitos deles aqui? — perguntou Hermione.
— Ah, um bom número... Vivem isolados na maior parte do tempo, mas tem a bondade de aparecer quando preciso dar uma palavrinha. São inteligentes, veja bem, os centauros... Sabem das coisas... Só não falam muito.
— Você acha que foi um centauro que ouvimos antes? — disse Harry...
— Você achou que era barulho de cascos? Não, se quer saber, aquilo é o que anda matando os unicórnios. Nunca ouvi nada parecido antes.
E continuaram a caminhar pela floresta densa e escura. Harry não parava de espiar, nervoso, por cima do ombro. Tinha a sensação ruim de que alguém os observava. Estava contente que tivessem Hagrid e seu arco com eles. Acabavam de passar uma curva na trilha quando Hermione agarrou o braço de Hagrid.
— Rúbeo! Olhe! centelhas vermelhas, os outros estão em apuros!
— Vocês dois esperem aqui! — gritou Hagrid — Fiquem na trilha, volto para apanhá-los!
Eles o ouviram romper o mato e ficaram parados se entreolhando, muito assustados, até não conseguirem ouvir mais nada a volta exceto o farfalhar das árvores.
— Você acha que eles estão machucados? — sussurrou Hermione.
— Não me importo com Malfoy, mas se alguma coisa pegou Neville... É culpa nossa que ele esteja aqui.
Os minutos se arrastaram. Seus ouvidos pareciam mais aguçados do que o normal. Harry parecia estar registrando cada suspiro do vento, cada graveto que quebrava. O que estava acontecendo? Onde estavam os outros?
Finalmente, um grande barulho de mato pisado anunciou a volta de Hagrid. Malfoy, Neville e Canino o acompanhavam.
Hagrid vinha danado da vida. Malfoy, ao que parecia, se atrasara e agarrara Neville por trás para lhe dar um susto Neville se assustara e mandara o sinal.
— Teremos sorte se apanharmos alguma coisa agora, com a barulheira que vocês aprontaram. Muito bem, vamos trocar os grupos: Neville, você e Hermione ficam comigo, Harry, você com o Canino e esse idiota. Sinto muito — acrescentou Hagrid para Harry num cochicho — mas vai ser mais difícil ele assustar você e precisamos acabar o nosso serviço.
Então Harry entrou pelo coração da floresta com Malfoy e Canino. Andaram quase meia hora, embrenhando-se cada vez mais, até que a trilha se tornou impraticável porque as árvores cresciam demasiado juntas. Havia salpicos nas raízes de uma árvore, como se o pobre bicho tivesse se debatido de dor por ali.
Harry viu uma clareira adiante, através dos galhos emaranhados de um velho carvalho.
— Olhe... — murmurou, erguendo o braço para deter Malfoy.
Alguma coisa muito branca brilhava no chão. Eles se aproximaram aos poucos.
Era o unicórnio, sim, e estava morto. Harry nunca vira nada tão bonito nem tão triste. As pernas longas e finas estavam esticadas em ângulos estranhos onde ele caíra e sua crina espalhava-se nacarada sobre as folhas escuras.
Harry dera um passo à frente, mas um som de algo que deslizava o fez congelar onde estava. Uma moita na orla da clareira estremeceu... Então, do meio das sombras saiu um vulto encapuzado que se arrastava de gatas pelo chão como uma fera à caça. Harry, Malfoy e Canino ficaram paralisados. O vulto encapuzado aproximou-se do unicórnio, abaixou a cabeça sobre ferimento no flanco do animal e começou a beber o seu sangue.
— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH!
Malfoy soltou um grito terrível e fugiu, seguido por Canino. A figura encapuzada ergueu a cabeça e olhou diretamente para Harry. O sangue do unicórnio escorrendo pelo peito. Ficou de pé e avançou rápido para Harry, que não conseguiu se mexer de medo.
Então uma dor, como ele nunca sentira antes, varreu sua cabeça, como se a sua cicatriz estivesse em fogo, meio cego, ele recuou cambaleando. Ouviu cascos as suas costas, galopando, e aí alguma coisa saltou por cima dele, e atacou o vulto.
A dor na cabeça de Harry foi tão forte que ele caiu de joelhos.
Levou uns dois minutos para passar. Quando ergueu os olhos, o vulto desaparecera. Um centauro avultava-se sobre ele, mas não era Ronan nem Agouro, este parecia mais novo, tinha cabelos louros prateados e o corpo baio.
— Você está bem? — perguntou o centauro, ajudando Harry a se levantar.
— Estou, obrigado, o que foi aquilo?
O centauro não respondeu. Tinha espantosos olhos azuis, como safiras muito claras. Mirou Harry com atenção, demorando o olhar na cicatriz que se sobressaia, lívida, em sua testa.
— Você é o menino Potter. É melhor voltar para a companhia de Hagrid. A floresta não é segura à estas horas, principalmente para você. Sabe montar? Será mais rápido. Meu nome é Firenze — acrescentou ao dobrar as patas dianteiras para Harry poder subir no seu lombo.
Ouviram repentinamente o ruído de galopes vindo do outro lado da clareira. Ronan e Agouro irromperam do meio das árvores, os flancos arfantes e suados.
— Firenze! — Agouro trovejou. — O que é que você está fazendo? Está carregando um humano! Não tem vergonha? Você é uma mula?
— Você sabe quem ele é? — retrucou Firenze — É o menino Potter. Quanto mais rápido ele sair da floresta, melhor.
— O que é que você andou contando a ele? — rosnou Agouro. — Lembre-se, Firenze, juramos nunca nos indispor com os céus. Você não leu o que vai acontecer nos movimentos dos planetas?
Ronan pateou o chão, nervoso.
— Tenho certeza de que Firenze achou que estava fazendo o melhor — falou em tom sombrio.
Agouro escoiceou com raiva.
— Fazendo o melhor! O que tem isso a ver conosco? Os centauros se preocupam com o que foi previsto! Não é nossa função ficar correndo por aí como jumentos recolhendo humanos perdidos na nossa floresta!
Firenze de repente empinou-se nas patas traseiras com raiva, de modo que Harry teve de se agarrar nos seus ombros para não cair.
— Você não viu o unicórnio! — Firenze berrou para Agouro. — Você não percebe por que foi morto? Ou será que os planetas não lhe contaram esse segredo? Tomei posição contra o que está rondando a floresta, Agouro, tomei, sim, ao lado dos humanos se for preciso.
E Firenze virou-se depressa para partir, com Harry agarrando-se o melhor que podia, eles mergulharam entre as árvores, deixando Ronan e Agouro para trás.
E Harry não fazia a menor idéia do que estava acontecendo.
— Por que Agouro está tão zangado? — perguntou. — O que era aquela coisa de que você me livrou?
Firenze abrandou a marcha, alertou Harry para manter a cabeça abaixada a fim de evitar os galhos baixos, mas não respondeu à pergunta. Continuaram por entre as árvores em silêncio por tanto tempo que Harry achou que Firenze não queria mais falar com ele.
Estavam passando por um trecho particularmente denso da floresta, quando Firenze parou de repente.
— Harry Potter, você sabe para que se usa o sangue de unicórnio?
— Não — disse Harry surpreendido pela estranha pergunta. — Só usamos o chifre e a cauda na aula de Poções.
— Porque é uma coisa monstruosa matar um unicórnio. Só alguém que não tem nada a perder e tudo a ganhar cometeria um crime desses. O sangue do unicórnio mantém a pessoa viva, mesmo quando ela está à beira da morte, mas a um preço terrível. Ela matou algo puro e indefeso para se salvar e só terá uma semi-vida, uma vida amaldiçoada, do momento que o sangue lhe tocar os lábios.
Harry ficou olhando para a nuca de Firenze, que estava prateada de luar.
— Mas quem estaria tão desesperado? — pensou em voz alta — Se a pessoa vai ser amaldiçoada para sempre, é preferível morrer, não é?
— É — concordou Firenze —, a não ser que ela precise se manter viva o tempo suficiente para beber outra coisa, algo que vai lhe devolver a força e o poder totais, algo que significa que jamais poderá morrer. Sr. Potter, o senhor sabe o que é que está escondido na sua escola neste momento?
— A Pedra Filosofal! É claro, o elixir da vida! Mas não percebo quem...
— Não consegue pensar em ninguém que tenha esperado muitos anos para retomar o poder, que se apegou à vida, esperando uma chance?
Foi como se uma mão de ferro de repente apertasse o coração de Harry. Acima do farfalhar das árvores, ele parecia ouvir mais uma vez o que Hagrid lhe contara na noite que se conheceram:
"Uns dizem que ele morreu. Bobagem, na minha opinião. Não sei se ele ainda teria bastante humanidade para morrer".
— Você está dizendo — Harry falou rouco — que aquele era o Vol...
— Harry! Harry, você está bem?
Hermione vinha correndo ao encontro deles pela trilha, Hagrid a acompanhava arfando.
— Estou bem — disse Harry, sem nem saber o que estava dizendo. — O unicórnio morreu, Rúbeo, está naquela clareira lá atrás.
— É aqui que eu o deixo — murmurou Firenze enquanto Hagrid corria para examinar o unicórnio. — Está seguro agora.
Harry escorregou de suas costas.
— Boa sorte, Harry Potter — disse Firenze. — Os planetas já foram mal interpretados antes, até mesmo pelos centauros. Espero que seja o que está ocorrendo agora.
Virou-se e entrou a trote pela floresta, deixando para trás um Harry cheio de tremores.
Rony adormecera no salão comunal às escuras, esperando os amigos voltarem. Gritou alguma coisa sobre faltas no Quadribol, quando Harry o sacudiu com força para acordá-lo. Em questão de segundos, porém, seus olhos se arregalaram quando Harry começou a contar a ele e a Hermione o que acontecera na floresta.
Harry nem conseguia se sentar. Andava para cima e para baixo na frente da lareira. Continuava a tremer.
—Snape quer a pedra para Voldemort... E Voldemort está esperando na floresta... E todo esse tempo pensamos que Snape só queria ficar rico.
— Pare de repetir esse nome! — disse Rony num sussurro de terror como se Voldemort pudesse ouvi-los.
Harry nem o escutou.
— Firenze me salvou, mas não devia ter feito isso. Agouro ficou furioso... Falou de interferência naquilo que os planetas anunciaram que ia acontecer. Eles devem estar indicando que Voldemort vai voltar. Agouro acha que Firenze devia ter deixado Voldemort me matar. Imagino que isso também esteja escrito nas estrelas.
— Quer parar de dizer esse nome!— sibilou Rony.
— Portanto só preciso esperar que Snape roube a pedra — continuou Harry febril —, então Voldemort vai poder voltar e acabar comigo. Bem, quem sabe Agouro vai ficar feliz.
Hermione parecia muito assustada, mas teve uma palavra de consolo.
— Harry, todo mundo diz que Dumbledore é a única pessoa de quem Você-Sabe-Quem já teve medo. Com Dumbledore por perto Você-Sabe-Quem não vai tocar em você. Em todo o caso, quem disse que os centauros tem razão? Isso está me parecendo adivinhação, e a Professora Minerva diz que adivinhar o futuro é um ramo muito inexato da magia.
O céu havia clareado antes de terminarem de conversar. Foram se deitar exaustos, com as gargantas ardendo. Mas as surpresas da noite não tinham terminado.
Quando Harry puxou os lençóis da cama, encontrou a capa da invisibilidade cuidadosamente dobrada sobre o forro. Tinha um bilhete espetado nela:
 “Por via das dúvidas”.